Filial no Brasil acusada de pressão no trabalho

Segundo representantes dos trabalhadores, unidade de Indaiatuba (SP) registra casos de doenças ocupacionais e psicológicas. Foxconn nega

Tatiana Fávaro / CAMPINAS, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2011 | 00h00

A multinacional de origem taiwanesa Foxconn chegou ao Brasil em 2005, quando instalou em Manaus (AM) sua primeira fábrica de celulares. Em 2006, abriu uma fábrica de celulares em Indaiatuba, interior de São Paulo. Em março de 2007, inaugurou sua maior planta no País, em Jundiaí, a 60 quilômetros da capital paulista. No local fabrica computadores, notebooks, netbooks e placas-mãe. A empresa possui também atividades em Sorocaba (SP) e Santa Rita do Sapucaí (MG).

A Foxconn é a maior fabricante de computadores e componentes eletrônicos do mundo. Está em 14 países e a expectativa é de alcançar, em 2011, a marca de 1,3 milhão de empregados. No Brasil, a unidade que mais emprega é a de Jundiaí, cidade apontada como a preferida para a instalação da fábrica dos produtos Apple e para receber o investimento de US$ 12 bilhões.

A empresa hoje tem 4,8 mil funcionários no Brasil. Segundo o gerente-geral, Ricardo Pagani, a tendência é esse número crescer 30% até o fim deste ano.

Jair dos Santos, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas e Região, disse já ter identificado casos de doenças ocupacionais e psicológicas, por causa da pressão no ambiente de trabalho na unidade de Indaiatuba. "Só que a empresa não reconhece essas doenças", disse.

Em dezembro, representantes de sindicatos em Campinas, Baixada Santista, São José dos Campos e Limeira se reuniram para discutir sobre jornada e ritmo de trabalho, modelos de produção e a relação dessas questões com doenças identificadas nos funcionários. "O trabalhador tem metas e prazos absurdos e, para cumpri-los, faz movimentos repetitivos em um ritmo alucinante", contou Santos.

Em 2010, a Foxconn registrou 11 suicídios na China. Em janeiro deste ano, uma funcionária de 25 anos em Shenzhen, sul do país, morreu depois de se jogar do décimo andar. Para tentar diminuir os casos, a empresa decidiu instalar redes de proteção nas janelas.

Segundo informou o sindicato, na unidade de Indaiatuba há ao menos três pessoas afastadas por depressão profunda. "Ao falarem da empresa elas se desmancham em choro, tamanha é a pressão que sofrem", afirmou Santos. Os funcionários afastados não quiseram dar entrevista, com medo de punição.

O Estado conversou com três funcionários da linha de produção de Indaiatuba que pediram para não ser identificados. Um deles, há quatro anos na empresa, relatou que o problema da Foxconn é a forma como são tratados. Um funcionário contou que enviou ao médico da empresa carta de outro médico, sugerindo seu afastamento temporário para tratamento de problemas por esforço repetitivo no braço . "Depois de dez dias esperando retorno, avisaram que não me afastariam. Eu continuo trabalhando,"

A cada dez segundos, esse funcionário faz três, quatro funções no ritmo da máquina. Mas, como não há rodízio de posto, o problema se agrava. Fora isso, há queixas de equipamentos sem proteção antiestáticos. "Não adianta reclamar, lá a gente não tem voz", disse outro empregado.

A Foxconn informou, por meio de assessoria, que não vai se pronunciar sobre as queixas. Mas assegurou que oferece benefícios como cartão-alimentação, transporte fretado, convênio médico e odontológico, restaurante no local e treinamentos regulares operacionais para desenvolvimento do trabalhador.

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