Filósofo diz que Argentina perdeu o rumo há 72 anos

"Não sabemos o que nos acontece e é isso exatamente o que nos acontece". Citando o pensador espanhol José Ortega y Gasset, o filósofo José Maria Poirier-Lalanne define a atual crise argentina, à qual nem os políticos do governo ou da oposição e nem os economistas conseguem encontrar uma saída. "O mais difícil de tudo é explicar a natureza desta crise. Justamente porque estamos mergulhados nela", diz à Agência Estado, durante uma entrevista em seu escritório no bairro da Recoleta.Poirier-Lalanne, que possui fluidas relações com a Igreja argentina, é o diretor da "Criterio", uma prestigiada revista de ensaios. "Não podemos negar a profundidade e a excepcionalidade da crise argentina. Ela bate forte porque não vemos a curto e médio prazo uma saída clara. Ela é tão desconcertante, que até está impressionando os europeus, que começam a achar que ela poderá repercutir em outros países do Ocidente".Segundo Poirier-Lalanne, na Argentina está começando uma espécie de crise de revisão dos efeitos negativos da globalização que poderá se espalhar para outros países.Agência Estado - A Argentina, um país que até fins dos anos 80 baseava-se em uma imensa máquina estatal e um mercado altamente fechado, pulou na piscina da globalização sem olhar direito onde estava mergulhando? É a primeira vítima deste fenômeno mundial?Poirier-Lallane - É provável. A Argentina tem a peculiaridade de passar de um extremo a outro. A Argentina poderia ser a primeira vítima dos efeitos perniciosos da globalização. Temos uma classe política que não soube medir os efeitos que a globalização teria no país, e exacerbou suas atitudes, entrando fundo na globalização sem medir as conseqüências. As lideranças argentinas são meio autistas. Meio suicidas, como as da República de Weimar, na Alemanha pré-nazista. Os políticos argentinos continuam valsando no meio de um salão de uma festa que já acabou? Aqui existe uma falta de discernimento dos problemas. Há uma tendência a pensar que o doente melhora mudando-o de leito. É um erro. O doente melhora com um bom tratamento.Agência Estado - A crise argentina é puramente uma questão de déficits fiscais, ajustes, política monetária, ou vai mais além?Poirier-Lalanne - Esta não é somente uma crise econômica. É uma crise política, ética e cultural. Os jovens não vêem uma saída positiva. E a crise não é de agora. O governo do ex-presidente Carlos Menem (1989-99) foi desastroso. E o governo do ex-presidente Fernando De la Rúa (1999-2001) teve uma grande incapacidade para reagir diante da crise. Nos acostumamos a viver em uma economia puramente financeira e especulativa.Agência Estado - Quando a Argentina perdeu o rumo?Poirier-Lalanne - Há muito tempo. A Argentina começa a se perder com o golpe militar de 1930, quando o general José Uriburu derruba o presidente Hipólito Yrigoyen. Ali, inicia-se o descrédito na democracia. Depois, agrava-se com o golpe de 1943, do qual participa o jovem coronel Juan Domingo Perón (que em 1946 se tornará presidente). O Justicialismo (Peronismo, movimento político que governou o país em boa parte do último meio século e ao qual pertence o atual presidente Eduardo Duhalde) nasce em sua origem de um golpe militar e autoritário e do pouco democrático exercício do poder. Isso será sempre um debate pendente na Argentina.Agência Estado - Como a última ditadura militar (1976-83) prejudicou o país?Poirier-Lalanne - Entre várias coisas, a repressão nos anos 70 dizimou uma geração política (calcula-se que os militares assassinaram 30 mil pessoas, majoritariamente lideranças políticas e intelectuais de diversos escalões). Quando um país perde sua classe de dirigentes dessa forma, isso resulta em crises profundas. Além dos que morreram, emigraram milhares de pessoas por questões políticas ou econômicas. Um dia, isso acaba tendo um custo muito alto para a nação.Agência Estado - Desde que a Argentina voltou à democracia, nunca conseguiu evitar que a crise fosse crônica?Poirier-Lalanne - A democracia, em 1983, não foi ganha pela sociedade. Na verdade, foi o resultado de um fracasso militar na absurda guerra das Malvinas em 1982. Um momento de exacerbada loucura da Argentina. Com a volta da democracia, o então presidente Raúl Alfonsín (1983-89) não acerta em fazer uma leitura do mundo contemporâneo. Desconfia exacerbadamente dos EUA e olha com paixão para a Europa. Ele está atrasado vários anos. Da mesma forma como cada golpe militar significa ir para trás. Mas pelo menos Alfonsín acertou com a criação dos primórdios do Mercosul.Depois, com Menem, há uma ida extrema ao neocapitalismo, o desemprego dispara, a pobreza aumenta. O clientelismo nas províncias se espalha assustadoramente. E agora, desde janeiro, temos o governo do presidente Duhalde, que não tem representatividade nem iniciativa. Para complicar, os governadores, verdadeiros donos do poder político, parecem caudilhos enlouquecidos, somente interessados em seu benefício pessoal e que acreditam que são senhores feudais.Agência Estado - Qual é a origem da melancolia e do fatalismo argentino, esse elemento tão presente no tango? Há quem diga que esta alma "tangueira" é a causa de parte da crise argentina?Poirier-Lalanne - O escritor Jorge Luis Borges dizia que os argentinos são europeus no exílio. Os argentinos sempre se sentiram muito identificados com a Europa mas, ao mesmo tempo, excluídos do velho continente. A imigração aqui foi muito maior, proporcionalmente, do que no Brasil. Em Buenos Aires, em 1900, mais da metade da população era estrangeira, pessoas com nostalgia de suas terras de origem? Mas todas essas expressões tão emblemáticas do tango, como o fatalismo e a tristeza, poderiam conviver com formas de progresso. É como Portugal, com seu fado. E esse é um país que cresceu admiravelmente nos últimos anos. Há muitos povos com folclores tristes, e que progridem.Agência Estado - Qual é a mudança de mentalidade que tiraria o país da crise?Poirier-Lalanne - A Argentina teria que incentivar uma cultura do trabalho, e de se acostumar a pensar a médio e longo prazo. Leia o especial

Agencia Estado,

05 de maio de 2002 | 19h24

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