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Fim da ajuda à Grécia

Os gregos estão salvos, mas só agora o país pode começar a se ‘refazer’

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

23 Agosto 2018 | 04h00

No dia 21 de agosto, em meio ao sufocante verão que vem exaurindo a Europa há quase um mês, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, anunciou solenemente que “o resgate acabou”. Grécia não está mais sob a tutela dos Estados e organizações internacionais (UE, FMI) que derramaram ao longo de cinco anos,  € 289 bilhões na ferida sangrenta, pela qual o país foi se esvaziando.

Para anunciar a “boa notícia”, Tsipras escolheu a Ilha de Ítaca, aquela onde, na época de Homero, Ulisses era o rei que voltou após dez anos de navegação aventureira, uma vez terminada a Guerra de Troia.

Essa é uma das vantagens de países antigos cujo passado foi luxuoso e cuja mitologia alimentou o devaneio do mundo por 2.000 anos. É o caso da Grécia. Ela é campeã. Se você precisar, para um discurso, uma dificuldade, um triunfo, uma fórmula de retórica mais profunda, a Grécia fornece-lhe uma tropa interminável de deuses, semideuses, heróis, generais, filósofos e matemáticos nos quais você sempre encontrará um traço de nobreza para desculpar sua derrota ou constrangimento. Você só precisa reler Homero, Odisseia, Ilíada, e constatará a presença de uma prodigiosa multidão de heróis. Seria muito estranho que nessa coleção de figurinhas, você não encontre algo que lhe sirva “como uma luva”. 

Isso é o que Tsipras fez, ao associar o resgate da Grécia, à navegação caótica e triunfante de Ulisses de volta da Guerra de Troia.

A metáfora foi bem encontrada. Não se deve esquecer que em Homero, Ulisses não é apenas um ardente lutador, corajoso e brilhante, mas também, homem de inteligência e artimanhas, um gênio da mentira. Ou da astúcia, genialidade, que eram necessárias em grande volume para manter-se sem afundar na tempestade. Foi isso que permitiu a Tsipras permanecer no leme aplicando um programa rigorosamente contrário àquele para o qual foi eleito. 

Lembremos: inicialmente, enquanto a Grécia está prestes a sucumbir sob os reinados desastrosos de diferentes tipos do direito burguês, Tsipras foi eleito sob um programa da esquerda radical, um programa terrível, desprezando toda a sabedoria e determinado a nunca implorar pela ajuda financeira externa para sair do fundo do buraco. Agora, depois de alguns bate-bocas para dar ilusões, o mesmo Tsipras muda abruptamente de lado, enquanto permanece capitão. Aceita um terceiro plano maciço de ajuda, a fim de evitar a pior falência e a saída do euro. Assim, a Grécia recebe € 289 bilhões em empréstimos combinados com a “curadoria” de seus credores. Tudo o que Tsipras prometera recusar. Sim, decididamente, Ulysses, o astuto, foi uma referência bem escolhida.

A Grécia foi realmente salva? Mais uma vez, o exemplo de Ulisses fez maravilhas. É certo que a Grécia se libertou do duplo programa de assistência que a manteve viva por oito anos. Mas em que estado está? Cansada, emagrecida, sem fôlego. Viajantes que retornavam da Grécia nos descreviam um país exangue, à beira do afogamento. 

Nunca antes fora imposta uma provação tão brutal e selvagem a um país da UE pelos seus credores. O PIB perdeu 25%. Se o desemprego caiu, é porque meio milhão de jovens gregos, os mais instruídos, saíram para morar no exterior. Cerca de 250 mil pequenos empresários desapareceram. Portanto, a Grécia que celebra vitória é um campo em ruínas. A corrupção é tão vívida hoje como foi ontem. Mas, por enquanto, de qualquer maneira, a insuportável, a feroz, a tutela humilhante colocada no cangote da Grécia em particular pela Alemanha de Merkel está suspensa (na verdade, a tutela continua, mas sob formas mais civilizadas, menos arrogantes). 

Então, Ulisses retornou a Ítaca, mas em que estado? Cansado e com os nervos à flor da pele, mas recuperou seu orgulho. Ele não será mais mantido à distância pelos grandalhões (Merkel, UE, FMI ...) A Grécia reinventa sua honra. E mesmo que os gregos estejam hoje sem camisa, eles podem voltar a erguer a cabeça. A Grécia está salva, mas é só agora que pode começar a se “refazer”.

E o Tsipras-Ulisses? Ele conseguiu ficar na sela em um cavalo louco. Mas não é um triunfante. É culpado por ter administrado de forma lamentável os tremendos incêndios de junho ao redor da Acrópole, matando 100 pessoas. Como foi o caso de Ulisses, retornar a Ítaca não será fácil. E Penélope, o que será dela? E esse Antínous, que vagueia pelo palácio, sempre em busca da boa sorte? / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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