Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Fim da crise na Europa?

Será possível? Será o fim da crise que nos é prometida há seis meses? Não será uma miragem? Um sonho? Os dados são de estremecer. A riqueza francesa, que diminuía desde 2008, estagnou em 2012, começa a se recuperar. Segundo as previsões, o crescimento seria de 0,1% em 2013. E, ontem, dados oficiais indicaram que na realidade a economia cresceu 0,3%.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2014 | 02h09

Claro, nada para alardear. Mas a tendência se reverteu. A queda foi interrompida e uma frágil recuperação se delineia. Os investimentos, que há dois anos diminuíram drasticamente, avançaram 0,6% em 2013. E embora o desemprego ainda seja alto, no terceiro trimestre de 2013 foram criados na França 14.700 postos de trabalho.

E todos os demais índices confirmam a notícia. O consumo das famílias registrou uma alta (mais 0,5% no terceiro trimestre de 2013). E uma outra feliz surpresa: o investimento cresceu pela primeira vezes desde 11% com um aumento de 6,6% no ano passado. E as exportações melhoraram.

Mas não criemos ilusões. Esses porcentuais continuam modestos. Mas há uma razão para o otimismo. É que quase toda a zona do euro foi arrebatada por um movimento paralelo. Com certeza continuam os retardatários, como Grécia, Itália e Espanha, mas no conjunto do Velho Continente encontramos a calmaria desfrutada pelos franceses; Alemanha avançou 0,4% no quarto trimestre e Holanda 0,7%.

Aí está a verdadeira razão da esperança. Num espaço econômico integrado como o da União Europeia nenhum país pode se isolar. Para que a retomada num país seja durável e perene é preciso que todo o espaço econômica ao qual ele está ligado siga a mesma trajetória.

Para que o comércio francês ou polonês progrida, é preciso que os outros países do continente tenham o apetite e o desejo de comprar produtos franceses ou poloneses. É nesse sentido que os dados divulgados ontem sobre o conjunto dos países europeus são encorajadores. E é nesse sentido também que será necessário, para que a recuperação esboçada na Alemanha, na França ou no Reino Unido se consolide que a Grécia, a Espanha ou a Itália se livrem das suas letargias.

Certamente essa nova fase é abordada em cada país segundo seu estilo e seu talento. No caso da França, vemos soprar novos ventos. País cansado, debilitado, cético e desencorajado, a França repentinamente se reconcilia com o espírito empreendedor, de inovação, da aventura.

Toda uma geração de jovens pioneiros chega à maturidade, assume riscos.

Adeus às velhas tradições mesquinhas, prudentes e pusilânimes dos pais e avós. Somos jovens, que diabo! Jogamos, nos expomos, rimos, inventamos. Jovens rapazes e moças de 25 a 30 anos se distanciam da atitude prudente dos mais velhos. As startups nascem como escargôs num jardim depois da chuva.

Este velho país fatigado, fragilizado, começa a produzir pequenos Vales do Silício (minúsculos na verdade). As velhas gerações se apagam, engolidas nas luzes amortecidas, confortáveis e um pouco mórbidas do século 20 ou mesmo 19.

Começamos a compreender uma lição já enunciada pelo grande teórico austríaco Schumpeter (1883-1950), que se empenhou para demonstrar que a queda das velhas estruturas, o colapso das indústrias obsoletas, o desaparecimento das casas de comércio tradicionais e a herança carcomida das gerações passadas, longe de serem mutilações, pelo contrário, eram aviso da ressurreição. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.