Robyn Beck/AFP
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Fim da lei do filho único faz 9 meses, mas China está longe de baby boom

Desaceleração da economia e custo de vida em alta levam as famílias chinesas a evitarem o segundo filho

Fernando Nakagawa / Enviado Especial a Chengdu, na China, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2016 | 05h00

O fim da severa lei do filho único vai completar nove meses na próxima semana. Desde o fim da regra imposta há mais de 30 anos, famílias chinesas podem ter dois filhos sem punição do governo. Apesar da euforia inicial com a nova legislação, a China está longe de um baby boom. Diante de pais preocupados com a economia em desaceleração e o encarecimento do custo de vida, parece que a maioria das crianças chinesas, especialmente na crescente classe média, não ganhará irmãozinhos por enquanto.

A polêmica lei do filho único foi adotada em 1979 para evitar o problema da superpopulação. Na época, a China estava bem perto de atingir 1 bilhão de habitantes e o filho único passou a ser incentivado com apoio financeiro e iniciativas como o acesso preferencial à educação e saúde. O segundo filho, ao contrário, era punido com multa e tratamento diferenciado nos serviços públicos. A lei imposta fez a taxa de fertilidade cair praticamente pela metade: de 3 filhos na segunda metade da década de 70 para o atual patamar de 1,55 filho.

Mas aí surgiu outro problema. Especialistas dizem que 400 milhões de nascimentos foram evitados no período – praticamente o dobro da população brasileira – e o envelhecimento da sociedade ganhou velocidade: a idade média dos chineses saltou de 20,1 anos em 1975 para 37 anos em 2015. Entre as consequências da lei, além da óbvia intervenção do Estado em uma escolha que deveria ser absolutamente individual, está também o desequilíbrio entre trabalhadores e aposentados.

Padrão. Chineses dizem que o problema aparece claramente na configuração familiar padrão que passou a ser o “4-2-1”: quatro avós aposentados são apoiados por dois pais trabalhadores que serão sustentados por uma única criança no futuro.

Em outubro de 2015, o governo anunciou que famílias poderiam ter dois filhos. A notícia correu o mundo e os investidores adoraram. Os papéis da empresa de produtos infantis China Child Care Corp chegaram a subir 43% em Hong Kong e os da fabricante de comida para bebê Beingmate Baby & Child saltaram 15% em poucos dias. A euforia, no entanto, não chegou às ruas e a alegria da maternidade parece que não será tão comum como muitos esperavam.

Em Chengdu, cidade de 14 milhões de habitantes no sudoeste da China, a clínica privada New Life cuida de mães e recém-nascidos. O movimento na sexta-feira era tranquilo e a agenda, com muitos espaços vagos nas próximas semanas e meses, mostra que o clima não deve mudar tão rápido. “Nossa ocupação continua perto de 70%, a mesma média de sempre. Pelo menos aqui, não há mudança com a nova lei”, diz a gerente Hua Qian.

Estimativas oficiais da Comissão Nacional de Saúde e Planejamento Familiar citam que 3 milhões de nascimentos do segundo filho devem acontecer por ano nos próximos cinco anos. Até 2050, o governo prevê aumento da força de trabalho em 30 milhões de pessoas. Mas o número é recebido com cautela.

Grandes fabricantes de artigos para bebês que se reuniram em uma feira em abril na cidade de Cantão trabalhavam com número mais baixo: entre 1 milhão e 2 milhões de nascimentos por ano no curto prazo. A demógrafa do Population Reference Bureau, um centro de pesquisa dos Estados Unidos, diz que a taxa de fertilidade vai mudar pouco até o fim da década e prevê que nascerão 23 milhões de segundos filhos até 2050 – reforço de menos de 2% no acumulado de 33 anos em um país de 1,4 bilhão de pessoas.

Fator econômico. Em Chengdu, Hua Qian diz que o bolso é a razão para que famílias de classe média evitem o segundo filho. “É muito caro. Mesmo que a escola e o médico sejam grátis, é preciso pagar muitas coisas, dos livros às aulas de reforço. Depois, a universidade. São poucos os que têm esse dinheiro”, diz. “Na classe média, há a ideia de que os filhos devem ter uma educação melhor que a dos pais. E se tiverem dois filhos não conseguirão oferecer isso a nenhum deles. Então, ficam com um filho só”. Famílias humildes estariam menos expostas a esse tipo de preocupação, diz Hua Qian que não é mãe, mas, quando for, quer apenas um filho.

Ao longo dos últimos anos, a lei do filho único passou por algum relaxamento e a experiência já mostrava que chineses são cautelosos sobre aumentar a família. Quando Pequim passou a permitir dois filhos para os casais formados por filhos únicos, o governo estimava 11 milhões de famílias enquadradas na situação e esperava até 2 milhões de nascimentos. O resultado foi a inscrição de 1,5 milhão de casais no programa e o nascimento de menos de 500 mil bebês – um quarto da previsão de Pequim.

Investidores entenderam que não há baby boom. Depois do salto inicial, as ações da fabricante de artigos infantis China Child Care desceram a ladeira e já acumulam perdas de 36% desde o anúncio da nova lei. Os papéis da fabricante de papinhas Beingmate perderam 21% na Bolsa de Shenzhen no mesmo período. Com casais receosos com a gravidez, quem se deu bem foi a japonesa Okamoto, uma das principais fabricantes de preservativos da Ásia. Quando a lei chinesa mudou, a ação chegou a perder mais de 20% em poucos dias. Desde então, já subiu 18%. 

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