Fim das ilusões

Qual é o plano liberal que o governo tem na manga para retomar o crescimento e o emprego? Não há nenhum

Luís Eduardo Assis, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2021 | 04h00

O próximo dia 19, quinta-feira, marcará o décimo sexto ano da morte da Velhinha de Taubaté. A personagem de Luis Fernando Verissimo ficou famosa por ser a única pessoa a acreditar no governo. A vetusta senhora morreu diante da TV enquanto acompanhava as notícias do escândalo do mensalão. Houve, na época, suspeita de suicídio, nunca comprovado. O mercado financeiro também acreditou que o ministro Paulo Guedes implantaria uma política liberal que livraria o País, na sua visão, de equívocos promovidos pelos governos social-democratas do PSDB e do PT. Há rumores de que ainda exista um trader de renda fixa que vaga pela Faria Lima falando, sozinho, que agora, com a ajuda do Centrão, as reformas vão decolar. Espera-se que não tenha o mesmo fim da crédula senhora do interior paulista.

As últimas semanas mostram claramente que não dá mais para ter ilusões. O pacote de mudanças no Imposto de Renda (favor não confundir com uma reforma tributária) foi forjado para ser um labirinto, modesto nas suas ambições, mas eficaz na sua capacidade de gerar uma barafunda colossal. Pode-se intuir, no entanto, que sua primeira intenção era aumentar a carga de impostos de tal forma a permitir a promoção de benesses que mitiguem o esfacelamento do apoio ao presidente Bolsonaro. Um subsídio ao diesel aqui, um reajuste ao funcionalismo ali e, principalmente, uma roupa nova para o Bolsa Família. Já na primeira rodada, o governo demonstrou mais uma vez sua total inépcia na tramitação de assuntos delicados e a versão atual das mudanças no IR podem reduzir, não aumentar, a arrecadação.

Para complicar ainda mais, há um precatório no meio do caminho. No meio do caminho, há um precatório. Mas não há por que se acoelhar. Basta criar uma emenda constitucional propondo o parcelamento a perder de vista das dívidas não pagas, ou seja, o calote do calote. O efeito prático é apenas gerar insegurança jurídica, a antítese do que um governo que se pretende liberal deveria fazer. Já não há mais como vender a ideia de que uma política econômica exitosa poderá pavimentar o caminho para a reeleição. Não há um projeto para o País, e, se houvesse, faltaria capacidade gerencial de implementá-lo. Sobretudo, não há mais tempo. A única artimanha que pode ser tentada é a compra de votos com o mais reles assistencialismo populista.

Não faltam razões para o presidente se preocupar com a reeleição (e com as consequências de não ser reeleito). É fogo no parquinho. A inflação bateu em 9% ao ano, a maior desde maio de 2016. A previsão de crescimento do PIB para 2022 vem declinando sistematicamente. As ameaças ao teto de gastos provocam siricutico no mercado, elevando as taxas de juros de longo prazo. Os juros de cinco anos pularam de 6% no começo do ano para 9,3% agora. O estímulo fiscal de 2021 não se repetirá no ano que vem. A previsão é de que o déficit primário atinja R$ 183 bilhões neste ano, mais do que o dobro do déficit de 2019, antes da pandemia.

Menor estímulo fiscal significa maior dificuldade de manter o crescimento, o que é particularmente nefasto com 14,8 milhões de pessoas desocupadas. Qual é o plano liberal que o governo tem na manga para retomar o crescimento e o emprego? Não há. A feroz radicalidade do ministro Guedes do começo do governo se esfumaçou. Não há vestígio de suas teses iniciais, de resto muito discutíveis. Tudo o que se vê, em copiosas quantidades, são arremedos para evitar o esboroamento completo da popularidade do presidente. Ressuscitada, a velhinha de Taubaté morreria de novo. Se o patriotismo é o último reduto dos canalhas, com dizia Samuel Johnson, o populismo é o último reduto de um governo fracassado.

ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DE ECONOMIA DA PUC-SP E DA FGV-SP. E-MAIL: LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM

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