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Fim de década

No Brasil alguns dizem que estamos a inaugurar uma “nova era”. Trata-se, entretanto, de nossa inexplicável inclinação a acreditar na arte de viver da fé – só não se sabe fé em quê

Monica de Bolle, O Estado de S. Paulo

02 Janeiro 2019 | 05h00

Não gosto de escrever retrospectivas, ainda que elas nos ajudem a entender o ponto em que estamos. Contudo, gosto bastante de refletir sobre o que vem pela frente, sobretudo em momentos como o atual, onde a esperança de renovação se confunde com a incontável quantidade de problemas que o mundo haverá de enfrentar neste fim de década.

Cada fim de década tem a sua marca. O fim dos anos 90 foi marcado pela ascensão dos governantes de esquerda e centro-esquerda na América Latina após a difícil travessia das ditaduras à redemocratização. Apesar das dificuldades de então, havia a tal da esperança de renovação que vingou por um tempo para então falir primeiro gradualmente, e, depois, repentinamente, com a epidemia de corrupção que engoliu a região. No fim dos anos 2000, sobreveio a pior crise econômica e financeira desde o século XX, deixando profundas sequelas tanto na economia quanto na política. Se os países emergentes, como o Brasil, foram inicialmente poupados do pior, tampouco tardaria para que as repercussões diretas e indiretas de tamanho evento se manifestassem em meio ao acúmulo de problemas desvelado subitamente – dos desarranjos da economia à operação Lava Jato.

Como o viés otimista do ser humano é algo programado para a própria sobrevivência da espécie, da crise vieram novas esperanças de renovação mundo afora, dessa vez marcadas por traços nacionalistas e por um revisionismo que muitas vezes se confunde com profissões de fé. Ou falta de fé. Falta de fé na globalização, falta de fé na imigração, falta de fé na ciência que embasa as mudanças climáticas que tantos querem negar. Falta de fé no conhecimento, pois, convenhamos, ninguém tem tempo para isso. Mais fácil é ver aquele meme do grupo da família, ou ler aquela notícia de proveniência duvidosa.

Neste fim de década temos, portanto, uma grande contradição. Há uma esperança de renovação atrelada a uma profunda descrença em todas as fontes confiáveis de dados e informações. O Brexit, que poderá ocorrer em março deste ano, é fruto disso: a esperança de que o Reino Unido livre das amarras da União Europeia possa prosperar quando todas as evidências indicam justamente o contrário – mas nelas ninguém acredita. A esperança de que o Trumpismo possa cumprir o prometido, contudo em meio a alguns indícios de que a recuperação americana começa a resfolegar e aos imensos desafios que terá Trump com o governo agora dividido. Democratas comporão a maioria da Câmara, enquanto parte do governo continua sem funcionar devido à briga política sobre a construção do muro. Sem muro, Trump calcula que perderá sua base de apoio para reeleger-se em 2020, no que está provavelmente certo. Mas, para complicar – porque sempre é possível complicar – a nova Câmara, dominada pelo Partido Democrata, dará prosseguimento às incontáveis investigações que hoje ameaçam o presidente norte-americano. A ver como Trump cercado reagirá a isso. Mais guerras comerciais com a China? Mais ataques aos aliados? Mais tremores na política externa? O certo é que esses abalos terão reflexos na economia mundial.

No Brasil alguns dizem que estamos a inaugurar uma “nova era”. Trata-se, entretanto, de nossa inexplicável inclinação a acreditar na arte de viver da fé, só não se sabe fé em quê. Na bancada evangélica? Em Paulo Guedes? Em Deus acima de Todos? Na esperança de que a corrupção vai desaparecer de nossa política como num passe de Queiroz? Já sabendo que essas perguntas tratadas serão por alguns como crítica infundada ao novo presidente, reitero: encarar o que vem pela frente com o devido realismo não é sinônimo de torcer contra. Não torço contra o governo de Bolsonaro, como não torci contra os governos petistas, embora tenha sido acusada de tê-lo feito em várias ocasiões. Contudo, com tantos problemas globais e locais neste fim de década, as novas lideranças do País terão de ser mais hábeis e atentas do que as que encerraram os anos 90 e os anos 2000. Estarão à altura do desafio? Por enquanto, prefiro o ceticismo cauteloso às esperanças ainda infundadas. Afinal, a esperança não vem do mar, nem das antenas de TV – muito menos da balbúrdia das redes sociais. 

ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY 

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