Fim do ciclo?
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Fim do ciclo?

Como os grandes bancos centrais já não estão em condições de emitir mais moeda e como o crescimento está rateando nas economias de alta renda, o que fazer?

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2019 | 20h00

No Ocidente, o grande debate em macroeconomia é a aparente falta de tração das políticas monetárias (política de juros) comandadas pelos grandes bancos centrais.

Apesar do despejo de moeda durante e após a crise de 2008, que derrubou o preço do dinheiro (os juros) a alguma coisa próxima de zero por cento ao ano, a inflação nas economias de alta renda segue rastejante (abaixo dos 2% ao ano). Enquanto isso, a atividade econômica segue próxima da estagnação.

O maior problema produzido pela persistência de juros baixos é o de que, se houver recessão (queda da renda), não haverá espaço para redução maior dos juros que reative a economia.

Operar a juros negativos é a abertura de porta para enormes distorções. Equivale à situação em que o credor (um banco, por exemplo) tem de pagar para o devedor para que este tome dele um empréstimo sem juros. Nessas condições, imagine o que aconteceria com os investimentos em títulos e outras aplicações de renda fixa.

Há uma semana, esta Coluna apontou para advertência feita por certos economistas de que uma das explicações para a baixa inflação nos países maduros é o alastramento das vendas pela internet, que reduziu os custos e achatou os preços das mercadorias. Mas há o jogo de outros fatores baixistas.

O envelhecimento da população dos países avançados é um deles. É o segmento de consumidores que já tem praticamente tudo de que precisa e já não puxa o cartão de crédito como antes nas suas compras. Outros fatores: a redução da atividade produtiva, apesar do maior emprego de tecnologia da informação; as megafusões e ação das grandes corporações que vêm absorvendo cada vez mais fatias do mercado.

Esse clima semiparalisante levou dois importantes economistas americanos, Lukasz Rachel e Larry Summers, a desenvolver a hipótese de que a economia mundial passou a viver um ciclo de “estagnação secular”. É outro jeito de dizer que existem limites para o crescimento e que estes estão prevalecendo sobre os fatores de expansão.

Como os grandes bancos centrais já não estão em condições de emitir mais moeda e como o crescimento está rateando nas economias de alta renda, o que fazer? O que fazer para garantir emprego e, sobretudo, para reverter os movimentos populistas que refletem ressentimento com o estancamento da renda e com a incapacidade dos Estados de continuar a distribuir as benesses do bem-estar social?

O ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional Olivier Blanchard faz uma proposta heterodoxa. Ele entende que a política monetária deu tudo o que tinha de dar e que a hora é a de que os Tesouros aumentem seu endividamento e usem os recursos assim obtidos para alavancar investimentos ou, simplesmente, para gastar. Ele parte do princípio de que economias de alta credibilidade podem aumentar substancialmente a dívida sem que nada de errado aconteça, como inflação e disparada dos juros.

O problema é que muitos países já estão altamente endividados. Em 2018, o setor público das economias maduras devia, na média, 108,7% do seu PIB, como demonstram as estatísticas do Instituto Internacional de Finanças. (Veja tabela.) Atenção: desses números foram excluídas outras dívidas importantes: as das famílias, as das empresas e as do setor financeiro.

A recomendação de Blanchard é questionável no que concerne às economias de grande credibilidade junto dos tomadores de títulos, porque essa credibilidade pode escorrer como água entre os dedos diante de uma crise de pânico e de perda de confiança, como a que aconteceu em 2008. E, decididamente, não vale para países emergentes, que ostentam histórico de calotes e/ou de renegociação de passivos, como México, Brasil e Argentina.

A questão de fundo é a hipótese levantada por Summers. Se a economia mundial está vivendo o fim do ciclo de expansão e passou a enfrentar a tal “estagnação secular”, provavelmente não será nem mesmo a forte expansão das despesas públicas dos países ricos que conseguirá reverter essa situação.

Talvez a melhor opção seria aumentar os investimentos que garantissem o desenvolvimento das economias mais atrasadas. Os emergentes teriam de recorrer a importações de máquinas e de produtos intermediários dos países maduros para garantir seu crescimento, puxando a economia mundial, como aconteceu com China e Coreia do Sul.

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