MARCOS BRINDICCI | REUTERS
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Fim do começo

Em pouco mais de três meses à frente do governo, Macri foi guindado à condição de líder mais influente da América do Sul

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2016 | 21h00

O governo de Mauricio Macri, da Argentina, chega aos 100 dias com muita mudança, mas muitos problemas ainda pela frente.

A virada foi radical – e para melhor. A economia foi destravada, as principais pendências com os credores foram encaminhadas, a confiança voltou e, apesar dos novos e graves desafios políticos internos e da ameaça da inflação, Macri conta hoje com 10 pontos porcentuais a mais do que os 51,4% que obteve no segundo turno das eleições.

O reconhecimento internacional é inegável. Depois do isolamento do resto do mundo que prevaleceu durante os 12 anos de governo dos Kirchners, a Argentina recebeu dois chefes de Estado de grande importância: o presidente da França, François Hollande, e o primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi. Agora se prepara para receber o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

Em parte também em consequência do ocaso da presidente Dilma, em pouco mais de três meses à frente do governo, Macri foi guindado à condição de líder mais influente da América do Sul.

Como o ex-secretário da Indústria da Argentina e hoje consultor, Dante Sica, resumiu para esta Coluna, “as correções do governo Macri estão assentadas em três eixos: devem ser economicamente consistentes, politicamente viáveis e socialmente toleráveis”.

A herança maldita nas contas públicas foi um rombo (déficit primário) de 5,5% do PIB. A política fiscal do atual governo prevê o saneamento gradual que leva o inconveniente de exigir um volume muito alto de financiamento do déficit público. Em compensação, porque a Argentina permaneceu 15 anos praticamente sem crédito, a dívida pública com o setor privado é baixa. O objetivo agora é buscar financiamentos em moeda estrangeira de US$ 29 bilhões por ano.

Os subsídios começaram a ser derrubados, especialmente os que prevaleciam nas tarifas públicas. O novo regime realista, que substituiu o câmbio “quase fixo” por uma flutuação administrada pelo Banco Central, aumentou a competitividade do produto argentino. Esses dois fatores juntos desrepresaram os preços. Essas manobras corretivas puxaram a “inflação real” dos 28% ao ano para a faixa dos 33% a 35% ao ano.

Por enquanto, o governo Macri vem convencendo a opinião pública de que não se pode olhar pelo retrovisor, mas mirar a tendência, que é de inflação declinante, uma vez que os reajustes corretivos acontecem apenas uma vez. A política monetária adotada persegue uma meta de inflação entre 20% e 25% ao ano.

O ambiente de negócios melhorou. Os investimentos e o emprego estão sendo retomados. A grande preocupação é o impacto sobre os negócios produzido pela crise do Brasil, que derrubou as encomendas à Argentina.

Graças ao eclipse da ala kirchnerista do peronismo, o principal foco potencial de oposição são os sindicatos. No entanto, eles vêm sendo contidos por um acordo informal que garante reajustes salariais em torno de 28% ao ano a ser celebrado por meio de acordos coletivos, cujo objetivo é repor a meta de inflação – e não a variação do dólar.

Até agora, o governo Macri contou com a relativa imunidade concedida aos governantes nos seus primeiros 100 dias (período de graça). A partir de agora, começa a vida dura.

CONFIRA:

O gráfico mostra como vem se comportando a arrecadação da Receita Federal.

É a recessão

Nesses tempos malucos, as comparações ficam prejudicadas. Descontada a inflação, a arrecadação de fevereiro ficou 11,5% mais baixa do que a de fevereiro do ano passado. Mas aí é preciso levar em conta que em fevereiro de 2015 houve uma entrada extraordinária de R$ 4,6 bilhões que não se repetiu neste ano. Mas continuam os males que já estavam aí. A arrecadação vai caindo porque o consumo e a produção também estão caindo.

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