Fim do racionamento é de alto risco, alerta mentor do plano

O fim do racionamento de energia elétrica neste momento é uma decisão prematura e de alto risco para o País, avalia o professor da Universidade de Salvador, James Correia ? um dos mentores do plano nacional de racionamento. Segundo ele, a resolução mais acertada do governo seria aguardar até o fim do período chuvoso, em abril, para suspender a redução do consumo. Desta forma, os reservatórios, que ainda estão com o nível baixo, recuperariam sua capacidade de armazenamento.Na sua avaliação, será o consumidor quem pagará a conta em caso de uma decisão equivocada. ?Se as chuvas não continuarem, o governo vai pôr em funcionamento as térmicas emergenciais, cuja energia é inerentemente mais cara que a hídrica, e cobrar do consumidor.?Confira abaixo os principais trechos da entrevista concedida à Agência Estado: Agência Estado? Qual seria o melhor momento para o governo decretar o fim do racionamento de energia? James Correia- Na minha avaliação, o racionamento somente deveria ser suspenso depois do período chuvoso, em abril. Além disso, precisaria estar vinculado a uma campanha de conservação de energia para consolidar a única coisa positiva do racionamento, que foi a mudança de hábito da população em relação ao consumo de eletricidade. AE? O atual nível dos reservatórios será suficiente para abastecer o País durante todo o período seco? Correia- A nossa capacidade de produção não é suficiente para atender a demanda com a confiabilidade requerida. Tanto que tivemos de lançar mão de um Programa Emergencial de Térmicas, que ficará em ?stand by?, para uso somente em último caso. Na minha opinião, o ideal é trabalhar para encher os reservatórios na capacidade máxima, capaz de agüentar o abastecimento por mais de um ano. Mas hoje temos um regime hídrico com capacidade somente anual. Ou seja, em 2003, vamos depender de novas obras para garantir o suprimento. Num ambiente de incerteza, o ideal é contar com o que temos. AE? Então, qual a explicação para a suspensão do racionamento agora? Correia? Não sei interpretar o que há por trás desta decisão. Mas, do ponto de vista técnico, qualquer especialista sabe que não é recomendado acabar um racionamento antes do período seco. Hoje está chovendo bastante, mas e se amanhã o regime se inverter? O governo não pode trabalhar com uma previsão otimista. É preciso esperar o fato se concretizar para depois efetuar as resoluções. AE? Para isso, o governo contratou as usinas térmicas emergenciais. Correia- Sim. Mas isso significa transferir para o consumidor o ônus de ter de despachar essas térmicas, que produzem energia mais cara que uma hidrelétrica. Ou seja, o risco vai todo para o consumidor, que terá de pagar a conta no caso de uma decisão equivocada. Se perguntarmos para o consumidor o que ele prefere, aumento de tarifa ou economia de energia, com certeza ele vai escolher a segunda opção. AE? Nesse caso, os consumidores do Nordeste seriam os mais prejudicados? Correia- Sim. A situação no Nordeste é muito complicada. Praticamente somos abastecidos apenas por uma bacia, que é a do Rio São Francisco. E nossos reservatórios ainda não estão com capacidade de armazenamento confiável. O próprio governo admitiu a gravidade do problema ao contratar 1.540 megawatts de potência de energia térmica emergencial, que será usada em último caso. Nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste, onde o consumo de energia é muito maior, a contratação não superou 500 MW de potência. AE? Até quando viveremos na sombra do racionamento de energia elétrica? Correia- Enquanto não resolvermos todos os problemas estruturais do setor elétrico brasileiro teremos de conviver com o fantasma do racionamento. Somente estaremos livres quando eliminarmos todas as pendências que intimidam o investidor. Para isso, precisamos ter uma definição clara de como será realizada a expansão do sistema elétrico. Até agora, por exemplo, somente as termoelétricas com participação da Petrobrás prometem sair do papel. E, mesmo assim, a empresa já fez uma revisão nos seus investimentos no setor. Todas as demais usinas térmicas estão com problemas para entrar em funcionamento. AE? Como o sr. avalia as medidas anunciadas pelo governo para destravar o setor elétrico brasileiro e atrair novos investimentos? Correia- Recebi recentemente do ministro Pedro Parente todo o relatório de revitalização do setor elétrico para fazer uma avaliação. A intenção é ampliar a discussão em torno das medidas que estão sendo propostas. Isso é bastante positivo, pois assim conseguiremos detectar os pontos de estrangulamento que prejudicam o desenvolvimento do setor elétrico e, quem sabe, mudá-las. AE? Existe alguma proposta com que o sr. não concorda? Correia? Eu só acho que o governo está criando um ambiente de competição em que os consumidores estão pagando a conta. Existe muita coisa errada no setor. As licitações de hidrelétricas, por exemplo, deveriam ser realizadas da mesma forma que as de linhas de transmissão, que ganha quem oferecer a menor tarifa.

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