"be water"

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''Finalmente estamos chegando lá''

Seth Waugh: presidente do Deutsche Bank para as Américas; executivo acredita que plano do governo Obama para salvar o sistema financeiro americano tem boas chances de emplacar

Entrevista com

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

28 de março de 2009 | 00h00

Seth Waugh, presidente do Deutsche Bank para as Américas (incluindo os EUA), é um dos personagens que vivem de perto o dia a dia da mais grave crise econômica americana desde a Grande Depressão. Um de seus últimos compromissos antes de embarcar para o Brasil, quarta-feira, foi um encontro com o secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner. Reunião, aliás, que ocorreu em hora mais do que especial. Segunda-feira, Geithner detalhou seu plano para salvar o sistema financeiro. Desde que a crise se aprofundou, com a quebra do banco Lehman Brothers em 15 de setembro, foi a única proposta que teve algum respaldo do mercado financeiro. Prova disso foi o desempenho das bolsas de valores. O Índice Dow Jones, o mais tradicional da Bolsa de Nova York, subiu quase 7% na semana. Waugh está moderadamente otimista com o plano. Prudente, acha que é preciso tempo para ver se vai funcionar. Na conversa com o Estado, reconheceu que os bancos erraram feio e acha inevitável uma regulação mais apertada.O Deutsche apurou em 2008 prejuízo de 4 bilhões, o primeiro desde a 2ª Guerra. A perda deveu-se a ativos tóxicos. Só no quarto trimestre, deu baixa de quase 1 bilhão nesses papéis. Waugh esteve no Brasil para participar da reunião anual do Conselho Latino-Americano do Deutsche. Foi a primeira vez que o encontro ocorreu fora dos EUA.O sr. encontrou esta semana o secretário Geithner. Acha que o plano dele vai funcionar?A estrutura do plano é interessante e traz ideias muito criativas. O problema será preço. Haverá algumas transações, há certamente ativos para isso. Estamos a ponto de fazer o que Henry Paulson (secretário do Tesouro antes de Geithner) disse. Ele poderia ter feito algo, mas não teve tempo. Finalmente estamos chegando lá. A questão é quanta atividade conseguiremos tirar disso, o que o mercado vai pagar pelo que os bancos vão vender.Acha que os bancos vão vender ?Sim. Não acho que inicialmente será algo grande, mas haverá uma transação ou outra, para criar preço, transparência, e o mercado vai poder saber onde quer vender mais, onde comprar mais. O Plano Geithner é um leilão para compradores privados com financiamento e parceria do governo para comprá-los. Há um equilíbrio, protege quem paga impostos e mostra que não se está pagando o que os bancos querem.Então, ainda é preciso tempo para saber se o plano vai funcionar? O mercado pareceu otimista.As boas notícias são que agora temos um veículo para quem quer vender ativos. Se alguém tem de limpar ativos, é possível. A primeira coisa a acontecer quando o teste de estresse (que vai aferir a real capacidade de os bancos resistirem às dificuldades com ativos podres) é o governo dizer: "Ok, você precisa tomar capital, você pode vender ativos tóxicos."A nacionalização é uma possibilidade para os EUA?Não. Acho que vão colocar dinheiro nos bancos que precisam, mas não nacionalizar. Funcionou na Suécia, mas é um modelo completamente diferente. O mercado deles é menor, mais local. Geithner tem sido criticado. Há quem diga que não é bom o bastante para lidar com a crise.Todos precisamos que ele consiga lidar. Ele tem trabalhado, pelo que sei, 24 horas por dia, é detalhista e inteligente. Conheço-o há alguns anos, e o apoio por essas qualidades. Teve 30 dias terríveis e uma semana boa. Após alguns momentos mais isolado, deve aparecer não só para falar de planos, mas buscar ideias. O mundo dos negócios não pode ser um inimigo, mas um aliado. O sr. estava - e está - no meio do furacão. Como é ser banqueiro e testemunha da crise?Nenhum de nós imaginou que chegaria a este ponto. A verdade é que essa bolha foi construída por um período longo, talvez uns 15 anos. Mas, com esse último estouro, o que foi construído em uma década foi perdido em seis meses. Tudo virou de cabeça para baixo, perdemos referências e só se via medo. Os EUA foram construídos sobre o consumismo - insustentável, pois as pessoas consumiam além das necessidades e os bancos lhes davam a possibilidade de fazer isso.O que deu errado?Retornos eram baixos, o crédito estava muito disponível, o gerenciamento de risco lidava com tempestades de dez anos e tivemos uma de cem anos. As pessoas viam um fenômeno global de crescimento em toda parte: Ásia, Brasil, Oriente Médio. Todos eram movidos por consumismo e uma perspectiva americana de viver além de suas necessidades. E especificamente sobre as operações do Deutsche nos EUA?Fomos melhor que os outros. Fomos o único que não pegou dinheiro do governo e me orgulho disso. Ganhamos dinheiro no começo da crise, apesar de termos perdido pela primeira vez no 4º trimestre em base anual, e disso não me orgulho. Tivemos demissões. Mas agora estamos em boa posição. O que vocês viram de diferente?Primeiro, tivemos várias referências negativas do subprime, da bolha imobiliária e nos afastamos. Outra coisa que contribuiu foi que, quando não conseguíamos vender um produto, parávamos de lidar com ele. Também temos uma cultura de crédito sólida e rigorosa. Nossa maior exposição era um negócio de títulos alavancados. Era grande e tínhamos muitos empréstimos, mas vendemos quase tudo. O sr. teme regulação excessiva?Sim, mas haverá mais regulação, merecida. O sistema financeiro falhou, as instituições falharam, foi uma vergonha para nós. Na conversa com Geithner, ele disse que os EUA querem continuar o centro financeiro e para isso é preciso ser exigente, mas não a ponto de perder competitividade.Já vê luz no fim do túnel?O governo tem papel chave. Um quarto da economia global é americana. O resto do mundo não vai se recuperar enquanto os EUA não se recuperarem. Em seis ou 12 meses, haverá coisas acontecendo. Haverá dias negros, dificuldades, mas os mercados estão reagindo. Estamos no caminho. Quem é:Seth WaughÉ presidente do Deutsche Bank para as Américas, operação que inclui Brasil e Estados Unidos, desde 2002. É formado em Economia e Inglês pelo Amherst College.

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