Finanças islâmicas vivem 'boom', apesar de religião proibir pagamento de juros

Saiba como empresários religiosos têm feito para driblar regras rígidas do islamismo

C. W., Economist.com

14 de janeiro de 2015 | 12h10

 LONDRES - As iniciativas de desenvolvimento fizeram muito para facilitar o acesso dos pobres ao crédito e ajudá-los a poupar. Também explicam o recente boom nas finanças islâmicas - produtos que não envolvem o pagamento de juros por questões religiosas. Existe alguma maneira de unir os dois conceitos e ajudar os muçulmanos mais pobres do mundo? Um estudo recente publicado na revista Journal of Economic Behaviour and Organisation indica que uma solução seria oferecer produtos financeiros que não envolvam o pagamento de juros.

Os muçulmanos de todo o mundo em desenvolvimento se encontram particularmente expostos à exclusão financeira. Eles tendem a ser excluídos dos sistemas financeiros formais, numa proporção que chega a 90% no Paquistão. Isso traz consequências ruins. Nos seis países de maior população muçulmana (Indonésia, Índia, Paquistão, Bangladesh, Egito e Nigéria), meio bilhão de pessoas sobrevive com menos de US$ 2 por dia.

O novo estudo analisa o que os doadores podem fazer para melhorar o microfinanciamento para os muçulmanos pobres. Conceder empréstimos com juros é difícil, e isso levou os economistas a conceberem novo plano. A ideia é reforçar as associações rotativas de crédito e depósito (ROSCAs), são amplamente usadas no mundo em desenvolvimento.

As ROSCAs são diferentes entre si, mas possuem a mesma estrutura. Alguém que não precisa de dinheiro num determinado momento faz um depósito numa conta conjunta: esse montante maior é então redistribuído para aqueles em necessidade (espera-se que, depois de se beneficiarem dos recursos do grupo, os membros da ROSCA devolvam o favor posteriormente). A ideia das ROSCAs é facilitar para todos a tarefa de poupar: ninguém desperdiça dinheiro com compras superficiais quando há outra pessoa usando o mesmo dinheiro. Também é possível investir o dinheiro recebido de outros membros da ROSCA.

O modelo da ROSCA pode ser atraente para os muçulmanos porque a pessoa que recebe dinheiro emprestado raramente paga juros. Em vez disso, podemos entender como "juros" o dinheiro pago como contribuição para outros membros em outros momentos (o mesmo vale para os custos administrativos).

Às vezes as ROSCAs não funcionam: há quem não siga contribuindo com outros depois de receber uma bolada de dinheiro. Esses problemas de "deserção" (jargão usado pelo setor) são tão generalizados que uma altíssima proporção de poupadores das ROSCAs admitem ter perdido dinheiro usando essas associações mútuas.

Para superar esses problemas, os economistas introduzem um banco nessa mistura. O banco garante os pagamentos a um membro da ROSCA que continue a fazer seus pagamentos em dia. Os inadimplentes se tornam devedores do banco, ao qual terão de pagar juros.

Os economistas realizam um experimento controlado no Egito, onde comparam a ROSCA com "garantias bancárias" a um esquema típico de microfinanciamento, no qual uma instituição empresta dinheiro cobrando juros. Os inadimplentes têm o acesso a tais empréstimos negado.

Os autores identificaram dois fatos interessantes. Primeiro, a ROSCA com garantia bancária apresenta uma proporção de beneficiados de (91%),superior à dos empréstimos no estilo do microfinanciamento (75%). Talvez isso ocorra porque os tomadores de empréstimos egípcios, dos quais muitos são muçulmanos, têm grande probabilidade de serem atraídos pela ausência de juros ligada às ROSCAs. Segundo, os membros da ROSCA apresentam maior probabilidade de quitar a dívida. O melhor resultado, no qual todos os empréstimos eram oferecidos e quitados, ocorreu em 63% dos casos de microfinanciamento, mas em 82% dos casos nas ROSCAs. A inadimplência faria com que tivessem de pagar juros: por motivos religiosos, muitos se esforçaram para evitar tal desfecho.

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Da Economist.com, traduzido por Augusto Calil, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

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