Philippe Wojazer/Reuters
Philippe Wojazer/Reuters

Financia, compra e corta

A Altice, de Luxemburgo, está criando um império no setor de telecomunicações com uma receita baseada em empréstimos e em agressivas reduções de custos

The Economist, O Estado de S. Paulo

07 de março de 2015 | 06h00

Patrick Drahi, um dos figurões do mercado de telecomunicações, que vem lentamente se consolidando na Europa, diz que gosta de ser discreto. Mas isso anda difícil ultimamente. Na lista da Forbes das pessoas mais ricas do mundo, publicada esta semana, ele saltou do 215º lugar para o 57º; no ranking da França, saltou do 14ª para a 3ª posição.

A companhia por meio da qual ele vem transformando o setor - e ampliando a própria fortuna - ainda está longe de ser um nome reconhecido. A Altice é uma holding registrada em Luxemburgo, cotada em Amsterdã, da qual Drahi tem 57% de participação por meio de uma outra holding, a Next LP. Até recentemente sua principal atividade era adquirir e aprimorar uma coleção eclética de operadoras de TV a cabo (e algumas de telefonia celular) em países que vão de Israel ao Caribe. A empresa emitiu ações em janeiro de 2014 e desde então o preço dos papéis mais do que triplicou. Hoje ela está avaliada em mais de  23 bilhões (US$ 25 bilhões).

Patrick Drahi chegou às manchetes de jornal há um ano, quando a Altice e a Numericable, sua subsidiária francesa de cabo, adquiriu o controle da SFR, segunda maior operadora de telefonia móvel da França, do conglomerado Vivendi, por  13,5 bilhões. Foi anunciado em 27 de fevereiro que outros  3,9 bilhões garantirão os 20% remanescentes da Vivendi na SFR.

Em dezembro, a Altice adquiriu a Virgin Mobile France, a maior operadora de telefonia virtual do país (como são denominadas as empresas que usam a capacidade ociosa das concorrentes) por um valor não especificado. A compra da Portugal Telecom da sua proprietária brasileira Oi, negócio avaliado em  7,4 bilhões, provavelmente será fechada no fim de abril. No total, Altice e suas subsidiárias gastaram no ano passado  28 bilhões na aquisição de outras companhias. E há rumores de que Drahi fará uma oferta de compra da Bouygues Telecom, a terceira maior operadora na França, por um valor entre  7,5 bilhões e  9 bilhões. Em todas estas aquisições, o plano é sempre colocar uma equipe de especialistas trabalhando para reduzir custos imediatamente.

Grande parte dos negócios fechados é financiada por meio financiamentos. A Altice pretende manter sua dívida em quatro vezes os lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda); no caso da Numericable/SFR, entre 3,5 a 4 vezes. Em ambas, ele duplica o padrão adotado pelas operadoras móveis, embora as empresas de cabo com frequência adotem proporções similares. 

Segundo analistas, a dívida líquida deve aumentar acima desses limites quando os pagamentos pela Vivendi e pela Portugal Telecom forem considerados. Nawar Cristini de Nomura, banco de investimento, estima que a dívida líquida da Altice no fim do ano fiscal de 2015 será 4,8 vezes o Ebitda e antes de qualquer proposta de compra da Bouygues.

Em 20 de fevereiro, a agência de classificação Moody’s informou estar revendo a posição da Numericable-SFR para um possível rebaixamento.

Patrick Drahi pode oferecer contra-argumentos poderosos, contudo. Com as baixas taxas de juro atuais, os investidores estão famintos de rendimentos; a Altice pode conseguir empréstimos baratos, Ao buscar levantar  5,7 bilhões em janeiro para a aquisição da Portugal Telecom, a Altice conseguiu  60 bilhões; em abril de 2013 o pacote de  12 bilhões de dívida com alto rendimento atraiu uma demanda no valor de US$ 100 bilhões.

O banco Nawar Cristini calcula que a dívida da Altice cairá para 4,3 vezes o Ebitda em 2017, à medida que as economias de gastos impulsionarem os lucros. Mas isso supõe que a Altice conseguirá cortar custos rapidamente, como ela espera - o que não é tarefa fácil na Europa. E que ela deixe de levantar empréstimos para crescer. Mas como já foi longe demais com sua farra de aquisições baseadas em dívida, é difícil imaginar que Patrick Drahi pretenda parar agora. 

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR TEREZINHA MARTINO, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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