Dida Sampaio/Estadão - 5/11/2019
Dida Sampaio/Estadão - 5/11/2019

'Financial Times' defende reformas no País e diz que janela de mudança pode se fechar 'por anos'

Para o jornal britânico, aprovação da reforma da Previdência foi 'conquista histórica que aumentou a confiança dos investidores'

Célia Froufe, correspondente, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2019 | 11h34

LONDRES - O jornal britânico Financial Times defendeu em editorial nesta segunda-feira, 25, que o Brasil mantenha seu ritmo de reformas e previu que, se o País deixar a oportunidade passar agora, a janela para mudanças será fechada "talvez por anos". Segundo o diário econômico, o presidente Jair Bolsonaro ganhou as manchetes por muitas das razões erradas desde que assumiu o cargo. "Suas fixações doentias com o aumento da posse de armas, denegrindo gays e inventando justificativas falsas para os níveis crescentes de desmatamento na Amazônia distraíram a atenção do público das mudanças positivas em andamento na economia brasileira. Isso é lamentável, porque o ministro da Economia, Paulo Guedes, segue um programa de reformas que está entre os mais ambiciosos do mundo dos mercados emergentes", comparou.

A publicação salientou que o primeiro fruto significativo dos esforços de Guedes foi a reforma da Previdência, finalmente aprovada no mês passado. "Essa foi uma conquista histórica que aumentou a confiança dos investidores em uma economia com uma longa história de desempenho insatisfatório", avaliou. De maneira incomum, segundo o jornal, dada a "natureza egoísta" da classe política brasileira, legisladores de diferentes partidos se uniram para aprovar a reforma em um cenário de forte apoio público.

No entanto, conforme o Financial Times, uma revolta popular violenta no vizinho Chile parece dar a Bolsonaro uma segunda opinião sobre manter a liberdade a um ministro que estudou economia na Universidade de Chicago na década de 70. O periódico recordou que o presidente decidiu adiar o envio ao Congresso de um pacote de reformas do setor público, dizendo que não havia pressa. 

Para o veículo britânico, essa é a primeira oscilação na movimentação, até então ousada do governo, por mudanças econômicas. A recente libertação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que aguarda um recurso contra sua condenação por corrupção, pode ter sido um fato, de acordo com o jornal. Lula, frisou o artigo, não perdeu tempo em rotular Guedes como "destruidor de empregos" e em mobilizar a oposição.

Por enquanto, na opinião do Financial Times, o restante do programa de Guedes está intacto. O Congresso está discutindo planos para mais privatizações, acionamentos automáticos de austeridade se Estados e municípios violarem os limites acordados de ampliação de gastos e uma revisão radical do sistema tributário notoriamente complexo do Brasil. O jornal ressaltou que o País está classificado como 124.º no mundo pelo Banco Mundial (Bird) em ambiente para negócios, atrás de Senegal e Lesoto.

As reformas foram apontadas pela publicação como uma parte essencial do programa de Guedes, pois pretendem limitar o emprego vitalício, cortar salários que podem exceder os do setor privado por uma grande margem e acabar com a promoção automática por tempo de serviço. "Sem surpresa, enfrentam uma oposição determinada dos 630 mil funcionários federais do Brasil, que contam quase a metade do Congresso como membros de seu grupo." O risco agora, aponta, é que a perda de coragem política de Bolsonaro roube o impulso de reformas pelo Congresso em um momento crítico.

A suspeita em Brasília, de acordo com o jornal, é que o presidente possa ficar tentado a abandonar uma mudança econômica potencialmente arriscada para preservar seu apelo populista eleitoral. Para complicar, conforme o periódico, Bolsonaro rompeu com o partido que o ajudou a conquistar o cargo (PSL) para fundar seu próprio movimento político (Aliança pelo Brasil).

O Financial Times encerra dizendo que há muito em risco para as reformas econômicas do Brasil, que afundam nas rochas do populismo. "O gigante da América Latina já esperou demais para colocar as finanças do governo em uma base sustentável e tornar o País um lugar mais atraente para fazer negócios. Se perder a oportunidade agora, a janela para mudanças será fechada, talvez por anos, e os investidores internacionais voltarão para outro lugar. Bolsonaro deve manter a calma e aproveitar a chance de o Brasil mudar."

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