Financiamento a perder de vista pode virar longa dor de cabeça

Especialistas apontam riscos e desvantagem financeira no negócio em que o consumidor leva anos para pagar

Marilena Rocha, O Estadao de S.Paulo

05 de dezembro de 2007 | 00h00

O brasileiro é bombardeado a todo instante por apelos para a compra financiada do carro sem que ninguém chame sua atenção para o fato de que a prestação será apenas parte dos gastos que terá no negócio. Uma mensalidade de R$ 500, por exemplo, pode até dobrar de valor com o acréscimo dos demais custos.As muitas facilidades para a compra de um veículo estão levando o setor automobilístico a quebrar, neste ano, recordes de produção e venda. Compra de um carro em 99 parcelas mensais ou em prazo menor, mas com pagamento da primeira prestação só em 2009, é um dos apelos. Mas cuidado: você terá uma série de outros custos, a começar pelo IPVA, equivalente a 4% do valor do carro.Assaltos e furtos tornam o seguro outro item indispensável. Em média, seu custo varia de 7% a 10% do valor do veículo, conforme seu grau de risco. A falta de uma vaga própria em casa ou no trabalho também representa gasto adicional entre R$ 100 e R$ 200 por mês. A eles se acrescem ainda gastos com combustível, trocas periódicas de óleo e até eventuais multas. Na melhor das hipóteses, o dono do carro terá de bancar, além do valor mensal do financiamento, outros R$ 500 com itens não dispensáveis como IPVA, seguro, estacionamento, gasolina e álcool.Esse amontoado de custos deveria levar o consumidor a ignorar os apelos do mercado automobilístico, segundo especialistas em finanças pessoais. Argumentam que muitos dos brasileiros que embarcam no sonho do carro zero, abraçando dívidas de longo prazo, só vão notar a enrascada em que caíram quando o pacote de gastos começar a pesar no orçamento.O financiamento de longo prazo também é contra-indicado porque leva a pessoa a pagar um valor bastante acima do custo real do bem. Muitas vezes, o custo final do financiamento será até três vezes maior que o preço à vista do carro. O consultor financeiro Marcos Crivelaro, dono de um Toyota antigo, defende o pagamento à vista. "O ideal é pagar de uma só vez. Quando não der, procure pagar até metade do valor e financie o restante em, no máximo, dez vezes. É a fórmula para que os juros não fiquem tão pesados."Crivelaro diz que quem não tem um carro para dar de entrada deve juntar dinheiro. "Em vez de pagar um empréstimo de oito anos, é preferível juntar por dois anos. A poupança é demorada, mas você pode dar uma turbinada levando seus recursos para a Bolsa", sugere.CUSTOS EMBUTIDOSEncarecem a compra a prazo, ainda, os custos da operação. Taxa de Abertura de Crédito (TAC), Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), seguro prestamista e Valor Residual Garantido (VRG) são alguns.Segundo o professor de finanças da USP Rafael Paschoarelli, até a taxa de boleto pode, na soma dos valores adicionais, representar sensível acréscimo na dívida. "Num financiamento de R$ 26 mil em 60 meses, por exemplo, a taxa de juros de 1,47% poderá ser, na verdade, de 1,61%, se o consumidor fizer na ponta do lápis o cálculo desses penduricalhos presentes numa operação de crédito." Autor dos livros Como Comprar Mais Gastando Menos e A Regra do Jogo, o consultor financeiro diz que é preciso ficar atento para que a compra não fique ainda mais cara do que o anunciado. "A TAC é cobrada tanto no financiamento como no leasing, que está livre do IOF. Já o seguro prestamista é opcional no financiamento. A pessoa que não tem conhecimento disso pagará desnecessariamente algo em torno de R$ 3 mil, se se considerar uma cobrança mensal de R$ 50 ao longo dos 60 meses do exemplo."No leasing, o comprador deve se informar se o VRG será diluído ao longo das prestações ou se ele terá de pagar no fim. O professor considera a compra de um veículo em 99 parcelas um ato de loucura. "É o preço da pressa. Quando acabar de pagar, o carro já terá ultrapassado seu tempo de vida útil e a pessoa terá pago duas a três vezes o valor real do bem. E se de repente ela perder o emprego?"Para quem se sente tentado a comprar hoje para só começar a pagar em 2009, adverte: "Nada é de graça na nossa vida. É claro que quando começar a pagar será cobrado dos juros que não pagou em 2007 e 2008." Para provar que o caminho certo é economizar para comprar à vista em condições de negociar a redução do preço, sugere depósitos de R$ 500 por mês. "Por uma taxa de 0,8% ao mês, a pessoa terá em 18 meses R$ 10 mil; em 60 meses, R$ 39.118,43; em 84 meses, R$ 60.534,03, e em 99 meses, R$ 76.154,26", calcula.INADIMPLÊNCIA Os muitos e-mails que recebe de pessoas desesperadas ou arrependidas por terem feito dívidas longas na compra de um carro levam o consultor financeiro Cláudio Boriola a ver um quadro de inadimplência a caminho no setor. "Não quero ser pessimista, mas uma compra de carro em 84 ou até 99 parcelas é uma compra de alto risco, que me remete à atual crise do setor imobiliário americano."Para quem está atrás de uma fórmula para se livrar do problema, ele sugere a pronta devolução do bem. "Não adianta querer brigar. Tem de fazer a coisa de comum acordo. E só se lançar a uma nova compra depois de planejar bem, pesquisar muito, pechinchar e, de preferência, pagar à vista."Boriola faz questão de deixar claro o peso dos juros. "Numa compra de R$ 10 mil, se financia R$ 8 mil, você tem de saber que vai pagar lá na frente R$ 19 mil. Seu gasto é sempre infinitamente maior." Outra dica: "Nunca atrase o pagamento da parcela. Eu mesmo atrasei uma mensalidade de R$ 400 e ela subiu para R$ 700." Ele conta que, depois desse ?pesadelo?, nunca mais recorreu a uma compra parcelada. "Estou com um Vectra 95 e um 98. Estão velhos, mas estão pagos e são meus. Não quero nenhuma dor de cabeça", brinca.Antes de definir uma parcela de financiamento, o consumidor precisa relacionar todos seus ganhos e gastos. "Tem de relacionar as despesas fixas e as variáveis. E já deve especificar quanto terá de gastar com IPVA, seguro, estacionamento, combustível e manutenção do carro. É preciso reservar ainda 10% dos ganhos para despesas emergenciais", ensina.CONDIÇÕESMuita cautela, pesquisa exaustiva de preços e taxas e prazo máximo de 36 meses. Essa é a receita para quem quer fazer um negócio com tudo para dar certo, segundo o diretor-executivo da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Andrew Frank Storfer. Para ele, os financiamentos de autos em prestações que se estendem de 84 a 99 meses precisam ser muito bem estudados. O representante da Anefac entende que em apenas três ou quatro anos será possível ter uma idéia de possível inadimplência decorrente da atual postura do mercado automobilístico. "Tudo vai depender de uma série de variáveis, como perda de emprego ou redução da renda do comprador e, ainda, outros percalços."Storfer argumenta ainda que, embora tenham recuado, as taxas de juros ainda são elevadas. Os 2,5% ao mês do ano passado baixaram hoje para uma média de 1,15%. Mas mesmo quem fizer por 1,8% ao mês um financiamento de R$ 26.700 em 60 meses vai gastar R$ 43.700, um acréscimo de 64%. "Se a inflação for totalmente dominada, a taxa de 1,2% para um financiamento de 99 meses será considerada muito alta."Por tudo isso, o diretor da Anefac recomenda cautela redobrada ao decidir-se por uma compra financiada. "Não se deixe levar pela emoção ou pela pressão de vendedores que dizem ?é só hoje?. Peça simulações e fuja definitivamente de decisões que façam você pensar que depois dá um jeito."Storfer tem um argumento definitivo contra a compra parcelada de um veículo em até 99 vezes. "Um carro no valor de R$ 25 mil, com uma taxa de 1,15% ao mês, terá parcela de R$ 852 num plano de 36 meses; de R$ 579 em 60 meses, e de R$ 424 em 99 meses." Ou seja, a diferença do plano de 36 vezes em relação ao de 60 prestações é de R$ 273 por mês (32%), caindo para R$ 155 por mês (26%) na opção de mais longo prazo, em relação ao plano de 60 meses.

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