Financiamento de imóveis puxa crédito

Depois de ficar praticamente estagnado em julho, estoque de crédito teve alta de 1,3% em agosto

MURILO RODRIGUES ALVES , BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2013 | 02h04

Depois de ficar praticamente estacionada em julho, a carteira de crédito do sistema financeiro engatou alta de 1,3% em agosto, puxada por financiamentos imobiliários e rurais e pelos desembolsos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Essas modalidades têm em comum a fonte dos recursos: são parcelas dos depósitos à vista e da caderneta de poupança, além de fundos e programas públicos, que os bancos são obrigados a aplicar em determinados tipos de empréstimos.

Enquanto o crédito direcionado teve expansão de 2,3% no mês passado e acumula alta de 16,2% no ano, o chamado crédito livre - empréstimos e financiamentos que as instituições financeiras têm autonomia sobre as condições das operações e sobre a destinação dos recursos captados em mercado - aumentou apenas 0,5% em agosto e 3,8% no acumulado do ano.

Os recursos direcionados têm sido a principal fonte de crédito de longo prazo no País, tanto para atender às necessidades de investimentos de empresas como para as famílias financiarem um imóvel. Isso porque os juros dessas linhas estão num patamar bem inferior às aplicadas nas operações com o crédito de livre. O Banco Central (BC) reconhece que os juros nas modalidades com recursos de livre aplicação são elevados, inclusive quando comparados com os de outros países.

Menos crédito. O comportamento distinto desses dois grupos de crédito fez com que a autoridade monetária revisasse as projeções para o crescimento do crédito livre e direcionado, embora mantivesse a expectativa de que 2013 fechará com expansão de 15% no total do crédito, uma desaceleração em relação ao ano passado, quando foi registrado aumento de 16,2%.

O chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Tulio Maciel, afirma que o número está dentro de um contexto de "moderação" observado nos últimos anos, depois de a taxa de expansão ter chegado a 30%. Como proporção do Produto Interno Bruto (PIB), a projeção do BC é que o crédito represente 57%, e não mais 56%, de todas as riquezas geradas no País.

Longo prazo. O BC projeta agora um incremento de 24% no estoque de crédito direcionado. No ano passado, o saldo desse grupo subiu 20,5%, porcentual semelhante ao que a autoridade monetária esperava anteriormente. Para o crédito livre, a estimativa agora é de crescimento de 8%, menos do que os 11% antes projetados e mais distante ainda dos quase 14% de 2012.

O protagonismo do crédito direcionado também pode ser medido pelo fato de o financiamento imobiliário ter se tornado em agosto a principal modalidade de crédito concedida às famílias. O estoque das operações com recursos da poupança e do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) destinadas à construção e à compra de casas alcançou R$ 315 bilhões no mês passado. O crédito pessoal, que inclui operações com desconto em folha de pagamento, fechou agosto com estoque de R$ 311,5 bilhões, assumindo a segunda posição.

No fim do ano passado, o crédito pessoal tinha estoque de R$ 279 bilhões e o crédito imobiliário, de R$ 255,3 bilhões. A ultrapassagem do crédito imobiliário, que deve continuar, segundo Maciel, sendo a principal modalidade entre as direcionadas às famílias, foi possível pelo ritmo de expansão dos financiamentos habitacionais superior ao do das demais carteiras.

Imobiliário. O economista do BC disse não ver com preocupação a velocidade desses financiamentos. Pelo contrário, segundo ele, esse fenômeno tem "aspectos sociais positivos" porque reduz o déficit habitacional brasileiro. De acordo com Maciel, o crédito imobiliário representa 7,8% do PIB brasileiro, porcentual muito inferior ao registrado em países desenvolvidos, onde a proporção é de, no mínimo, metade do PIB. Ele espera uma acomodação lenta dos financiamentos imobiliários, seguindo tendência de longo prazo já observada, uma vez que a expansão já chegou a 50%.

Já com as empresas, em agosto, o BNDES foi responsável por três quartos do crédito direcionado. O crescimento no estoque de crédito liberado pelo BNDES, no ano, foi de 10,7%. Outro destaque foi a expansão de 19% de janeiro a agosto no crédito rural, consequência das alterações regulatórias que estenderam esse tipo de operação ao setor sucroalcooleiro.

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