Financiamento é capenga

Tudo vai bem na economia brasileira, mas temos um problema. Estamos nos financiando com investimentos externos voláteis, em ações, títulos do governo, e não diretos, mais estáveis e voltados à produção. Os investimentos financeiros dependem muito do cenário exterior. Entram tão facilmente quanto podem sair. Este ano, apesar da crise europeia, eles continuam chegando por causa do relativo equilíbrio das contas internas e do bom desempenho econômico. Outro fator de atração desses capitais é o aumento do juro interno, que torna bem mais rentável investir em papéis no Brasil do que no exterior. Quem vem pode ganhar muito. Mas pode sair também com um simples toque de teclado se precisar compensar perdas lá fora ou sentir que as coisas podem mudar num ano eleitoral.

, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2010 | 00h00

Como a inflação continua alta e os ajustes fiscais, quando feitos de verdade, demoram a ter efeito, a tendência é de que o BC continue elevando os juros ? estima-se que podem chegar a 12% no fim do ano ? e os lucros de quem investe nesse mercado. Mas depender tanto e cada vez mais de recursos voláteis é no mínimo, imprudente e perigoso.

"O que tem salvado é o investimento em carteira. É preocupante que cada vez mais o País dependa desse capital volátil para se financiar", diz o prof. Antônio Corrêa de Lacerda. "Mas o próximo governo terá de atacar esse problema." E a coluna não viu até agora nenhum programa efetivo dos dois principais candidatos nesse sentido. Estão muito vagos sobre seus projetos econômicos. É ruim, pois, diante a mudança, pode afastar investidores.

Mas não vem mesmo? O BC respondeu na terça-feira à pergunta se realmente os investimentos diretos estão recuando. Estão sim. E muito. Apenas US$ 7,9 bilhões até abril. Isso contrasta com os US$ 8,8 bilhões do ano passado. O quadro é pior ainda porque eles já estavam em queda em 2009.

Tem mais. Esse resultado frustra completamente a previsão do governo de investimentos diretos de US$ 45 bilhões até dezembro. Até agora, nos últimos 12 meses, estão em US$ 25,1 bilhões. E não há sinal de que as empresas tenham planos para voltar a investir (entraram apenas US$ 2,2 bilhões em abril), o que foi agravado pela crise europeia. E ela ainda vai durar muito.

Não é só o déficit. Neste cenário, o déficit em conta corrente começa a preocupar. Já está US$ 16,7 bilhões até abril. Ou seja, 2,6% do PIB. Três vezes mais que no mesmo período do ano passado. Como financiá-lo? Por enquanto, com aquele capital volátil. O caminho errado só seria pior se fosse pelo endividamento externo, hoje controlado. O fato é que não se pode contar com os investimentos diretos, pelo menos este ano.

A saída em curto prazo seria buscar recursos via comércio exterior. Mas está fechada. O pífio superávit se aproxima de um déficit desastroso. As importações cresceram 60% e as exportações apenas 23,%. Isso só agrava o resultado final, das contas externas.

E surge o dilema do câmbio. É o real valorizado, sim, mas é principalmente a incapacidade mostrada pelo governo de agir sobre as exportações, associada cada vez mais à acomodação das empresas num mercado interno que cresce em torno de 10%. Isso só tende a agravar-se com a valorização do real. Elas nem precisam do desestímulo do real valorizado (vendem mais caro e importam mais barato) para se concentrarem no mercado interno. E aqui o dilema: agindo assim, em legítima defesa empresarial, provocam a redução do superávit comercial e, no fim da linha, acabam ajudando a valorizar o real.

Saída? Ora, exportar mais, se preciso ? e precisa! ? com redução da carga tributária, e criar incentivos muito especiais, excepcionais mesmo, aos investimentos diretos. Quem diz isso não é a coluna. São os economistas de bom senso neste país que nunca antes viu crescimento tão forte e canhestro. Estamos doentes e com febre que só aspirina não resolve.

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