Moeda Seeds
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'Fintech social’ de microcrédito quer captar até US$ 70 milhões para se expandir

Empresa atua com microcrédito e consultoria voltados especialmente para cooperativas agrícolas, pequenas empreendedoras e pessoas 'desbancarizadas'

Entrevista com

Taynaah Reis, fundadora da Moeda Seeds

Cleide Silva, SÃO PAULO

23 de novembro de 2020 | 05h00

A primeira fintech brasileira de impacto social, a Moeda Seeds, criada em 2017, se prepara para uma nova rodada de investimentos, em dezembro, para captar entre US$ 50 a US$ 70 milhões. Na primeira busca por recursos, no mesmo ano em que fundou a Moeda, Taynaah Reis, de 32 anos, conseguiu US$ 20 milhões, a maior parte de investidores da Ásia, em especial da China. De sábado até hoje, ela está entre um grupo de 500 jovens do mundo todo convidados pelo papa Francisco para discutir a economia do amanhã para que seja mais justa, inclusiva e sustentável.

O que é a Moeda Seeds?

É uma startup que usa a tecnologia blockchain para facilitar financiamentos a projetos de impacto social, principalmente aqueles liderados por mulheres. Nossa prioridade são pessoas desbancarizadas. Eu criei a primeira criptomoeda voltada ao cooperativismo e microcrédito para que as pessoas conseguissem acessar capital de forma mais rápida e mais barata.

Como surgiu essa ideia?

Meu pai trabalhava no Ministério da Agricultura e foi um dos fundadores do Pronaf (Programa Nacional para Agricultura Familiar) e sempre me levava para visitar cooperativas de agricultores, aldeias, quilombos e eu via as dificuldades deles - em especial os grupos liderados por mulheres -, em obter capital de giro, equipamentos e em ter acesso a crédito e ao capital estrangeiro. Foi pensando nessa perspectiva que construí a Moeda Seeds. Também quando eu era criança via minha mãe passar horas nas filas de bancos para fazer alguma transação, e nesse tempo ela deixava de ficar comigo. Eu dizia que quando crescesse teria um banco em que não seria preciso ficar horas na fila.

Como funciona?

Temos um fundo de investimento de microcréditos, com custo de transações mais barato para que o crédito chegue às pessoas, seja inclusivo, com pilares de educação. Temos um time de 87 pessoas que desenvolve projetos, assessora as pessoas na construção de negócios, produtos e sua comercialização. Nos bancos convencionais os juros médios são de 56% ao ano. O nosso é de pouco mais de 20% e temos programas de benefícios com 12% ao ano. Muitas pessoas têm dificuldade de usar os sistemas dos bancos como abrir conta, usar cartão de crédito, e-token etc. Nosso sistema é bem simples e as pessoas podem, por exemplo, sacar dinheiro na lotérica ou fazer a transação entre pontas (com o comércio e prestadores de serviços locais).

Quantos clientes a Moeda tem?

Mais de 100 mil, a maioria da área rural, mas estamos iniciando atendimento nas áreas de periferia também. Atuamos em todo o País e temos escritórios em Nova York, Pequim e Uruguai. Já emprestamos R$ 6,5 milhões. Na pandemia, crescemos mais de 80% no volume de crédito. Com o aumento do delivery, cresceu a demanda para ampliar a produção e fazer as entregas. Para os agricultores montamos um marketplace logo após as feiras de orgânicos terem sido fechadas. A antecipação de crédito e o acesso a instrumentos tecnológicos ajudaram muito.

Em que será investido o valor da nova captação?

Com a primeira captação criamos a empresa e a tecnologia e agora queremos expandir as linhas de crédito, contratar mais pessoal e aumentar o volume de capital emprestado. Nossa meta é pelo menos 1 milhão de mulheres impactadas no ano que vem.

Que tipo de projetos já apoiou?

Temos convênio com o Estado do Ceará e temos várias iniciativas com recicláveis e artesãs. No Norte temos parceirias com reservas extrativistas e com uma organização internacional que atende pescadores. Em Minas Gerais temos parcerias com o BDMG e projetos com produtores de café. No Sul com o pessoal da cadeia do leite, com agricultores. Estamos abrindo mais um marketplace de alimentos orgânicos, agora no Rio de Janeiro. Fazemos toda a assessoria para que passem o que era a feirinha física para o digital.

Qual o retorno para a empresa?

Cada projeto de crédito a gente consegue em média 8% de retorno, que é muito bom, pois os investidores se sentem confortáveis em investir. A receita para a empresa que está girando hoje também é confortável para expandirmos e o capital que vai chegar vai dar um apoio para alavancar a empresa ainda mais.

Como você foi convidada para o encontro com o papa?

Fui indicada entre um grupo de 3 mil pessoas, das quais 500 foram selecionadas pela equipe do Vaticano. Era para ser presencial, mas com a pandemia será on line. A ideia do papa é criar um grupo para discussões frequentes sobre a construção de uma economia mais inclusiva, mais humana, a humanização das finanças, pensar de forma mais sustentável, ter um consumo mais consciente.

Qual sua formação?

Iniciei e não concluí formação em Economia, na UNB, depois tive oportunidade de fazer mestrados pela Universidade de Genebra na área de meio ambiente e de políticas públicas internacionais. Tenho alguns certificados e cursos pela Harvard, MIT e outros. Na parte de tecnologia sempre fui autodidata.

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