Fitch diz que monitora obrigações de bancos e desemprego no Brasil

Segundo agência, país tem nível de capitalização adequado, mas alerta que há riscos importantes à frente

Nalu Fernandes, da Agência Estado,

31 de julho de 2012 | 18h42

SÃO PAULO - A Fitch Ratings avalia que o setor de bancos no Brasil tem nível de capitalização adequado. "Os bancos mantêm níveis elevados de capital", afirmou o diretor regional de crédito na América Latina, Peter Shaw, em teleconferência. O analista alerta, no entanto, que há riscos importantes à frente. 

Diante da elevação da concessão de crédito nos últimos anos, ainda que tenha ocorrido desaceleração da concessão recentemente, seria natural que o nível de endividamento também aumentasse. A parcela do serviço de dívida, segundo Shaw, está em níveis historicamente elevados, dando sinais de problemas potenciais.

A Fitch cita que monitora a situação das obrigações dos bancos, bem como as condições do desemprego no País, mas também menciona que os níveis de emprego "têm sido surpreendentemente resistentes". A agência de classificação de risco observa também que o Banco Central tem sido muito ativo em evitar que situações de estresse evoluam.

Para a Fitch, o aumento do endividamento das famílias e o porcentual de serviço da dívida sugerem que a demanda por crédito pode ficar mais contida, embora considere que os bancos possam potencialmente mirar novas classes na sociedade, uma vez que o juro básico está em baixa histórica.

Imóveis

Já sobre o setor de imóveis, a agência não espera queda significativa dos preços no curto prazo, ainda que os preços pareçam caros e sobrevalorizados em algumas áreas. Há, no entanto, certos riscos para potencial declínio dos preços dos imóveis no País, como o comportamento da taxa de desemprego.

Reajuste

De acordo com a diretora sênior de ratings soberanos da América Latina da agência de classificação de risco, Shelly Shetty, a economia do Brasil está em processo de reajuste e uma moeda mais fraca faz parte disso. Em teleconferência, a executiva citou que vê poucas razões para que o real tenha apreciação no médio prazo.

Para a Fitch, os principais riscos externos para o Brasil derivam de uma intensificação da crise na zona do euro, bem como uma desaceleração mais rápida do que é esperado para a economia chinesa.

Shelly considera que o dólar provavelmente vai permanecer em cerca de R$ 2, embora acrescente que não mira um nível para o câmbio. A analista afirmou que o Banco Central continua operando com câmbio flexível e meta de inflação, embora observe que o BC tem feito intervenções frequentes no mercado de moedas.

A executiva cita que os níveis de preços das commodities podem impactar a moeda brasileira, os fluxos de capital e afetar a confiança, o que poderia ter consequências para a demanda doméstica. Tais riscos são materiais, na visão de Shelly. "Commodities representam risco, mas o Brasil não é apenas uma história de commodity", ressaltou.

Ela reconhece que há uma desaceleração cíclica econômica, cita que as condições de demanda externa já não são tão favoráveis e considera que o governo (formuladores de políticas) precisa lidar com desafios da competitividade, como a carga tributária, infraestrutura e as questões de capital humano, ou seja, mão de obra.

Flexibilidade

Diante da ansiedade ligada ao crescimento da economia, considerou Shelly, seria importante para os formuladores de políticas no Brasil serem cuidadosos para calibrar o mix das políticas. Segundo ela, o País têm flexibilidade suficiente para lidar com choques externos e também têm colchões suficientes para se proteger.

A Fitch projeta PIB de 2,5% neste ano e de 4,5% em 2013. Os números foram citados em 26 de julho, quando a agência reafirmou o rating do País, e estão mantidos. Na ocasião, a Fitch reafirmou os ratings do Brasil em moeda local e estrangeira em BBB, com perspectiva estável, e o teto do País em BBB+.

Resistência

A agência considera que o rating soberano do Brasil permanece resistente durante a volatilidade financeira internacional. Para Shelly Shetty, o rating do Brasil está bem ancorado.

A analista, porém, enumerou que há fatores positivos e negativos para uma futura ação no rating do País, mas enfatizou que estas duas forças estão equilibradas, em linha com a perspectiva estável do rating soberano.

Entre os fatores positivos estão o nível das reservas internacionais e a posição de credor externo líquido do Brasil. Entre os negativos, há o elevado endividamento (bruto) do País em comparação a outros países de rating semelhante, a carga tributária e as obrigações de bancos, que são monitoradas pela agência de classificação de risco.

Espaço fiscal restrito

A Fitch reconhece que o espaço fiscal é mais restrito no Brasil do que em seus pares de mesma classificação de risco soberano, mas considera que a redução da taxa básica de juros tem fornecido algum espaço adicional para que o governo implemente estímulo fiscal. "O Banco Central tem cortado juros agressivamente para níveis historicamente baixos, diante do cenário de inflação declinante, incerteza global e atividade doméstica letárgica", afirmou Shelly.

O oposto também é verdade. A Fitch avalia que a consolidação fiscal continua e que isso também tem colaborado para que o Banco Central corte a Selic.

A Fitch reforça que o mix de política fiscal melhorada precisará ser sustentado com objetivo de manter o juro básico baixo.

Tudo o que sabemos sobre:
FitchBrasilRating

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.