Fitch rebaixa nota de risco da Espanha

Redução do crescimento que será provocada pelo programa de ajuste econômico é o motivo para tirar o país da classificação mais alta da agência

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2010 | 00h00

A Espanha perdeu ontem parte de seu status aos olhos dos investidores internacionais. A agência Fitch Ratings anunciou no início da noite ter rebaixado o rating (nota da dívida) do país de AAA, o mais elevado grau possível, para AA+, nível ainda elevado, mas agora em tendência de baixa. A justificativa é de que o nível de crescimento do país será reduzido pelo programa de austeridade aprovado nesta semana pelo congresso.

O anúncio foi feito em nota divulgada no final da tarde na Europa e vai no mesmo sentido de outra agência, Standard & Poor"s, que havia reduzido a nota de AA+ para AA em 28 de março. "O rebaixamento reflete a opinião que o processo de ajuste em direção a um nível mais baixo de endividamento privado e exterior vai reduzir a taxa de crescimento da economia espanhola em médio prazo", diz o comunicado da Fitch, assinado por Brian Coulton, responsável para dívida soberana na Europa. A agência, afirma, "antecipa o processo de ajuste", que "será mais difícil e prolongado que em outras economias com qualificação AAA".

Agora, só Alemanha, França, Holanda, Suécia e Reino Unido detêm o nível de confiança mais elevado no continente.

Cortes. O programa de rigor do governo de José Luis Zapatero foi anunciado há dez dias e prevê cortes orçamentários de ? 15 bilhões, marcado pela redução média dos salários do funcionalismo em 5% em 2010 e 2011, assim como seu congelamento no período. Madri planeja ainda o aumento da idade limite de aposentadoria, entre outros projetos de rigor fiscal que desagradam aos sindicatos e à opinião pública do país. O plano foi aprovado na quinta-feira pelo Congresso por uma margem apertada de votos: 169 a favor e 168 contra.

O arrocho já teve um efeito colateral: obrigou o governo Zapatero a rever as perspectivas de crescimento econômico. Em 2010, o Produto Interno Bruto (PIB) deverá recuar em 0,3%. A recuperação deverá vir em 2011, com aumento de 1,3%. Entre 2012 e 2013, os prognósticos indicam 2,5% de crescimento (ante 2,9% na estimativa precedente) e 2,7% (ante 3,1% imaginados). No período, o desemprego deverá variar de 19,4% a 16,2%, ainda segundo o Ministério da Economia espanhol.

O objetivo do pacote é lutar contra o déficit público, que fechou em 2009 em 11,2% do PIB. Embora tenha dobrado de nível desde 2007, a Espanha não tem endividamento elevado, se comparado a outros países europeus em crise: 66%.

Incoerência. A decisão da Fitch inclui a Espanha no rol dos países na mira das agências de classificação de risco. Até aqui, apenas Grécia e Portugal, que vivem uma crise de credibilidade em razão dos altos déficits públicos e níveis de endividamento, haviam sido rebaixadados. Os rebaixamentos revelam ainda a encruzilhada dos países europeu - ou a incoerência das agências.

Enquanto a Espanha é rebaixada por tentar reduzir o déficit e, com isso, prejudicar seu crescimento, Grécia e Portugal haviam sido punidos por ter déficits e endividamentos elevados.

PARA ENTENDER

O rating é uma opinião sobre a capacidade de um país ou uma empresa saldar seus compromissos financeiros.

A avaliação é feita por empresas especializadas, as agências de classificação de risco, por meio de notas que apontam para o maior ou menor risco de ocorrência de um calote. As três agências de maior visibilidade são Standard & Poor"s, Moody"s e Fitch.

Para publicar uma nota de risco de crédito, os especialistas dessas agências avaliam além da situação financeira de um país, as condições do mercado mundial e a opinião de especialistas da iniciativa privada, fontes oficiais e acadêmicas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.