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Floresta, pasto e lavoura convivem no mesmo espaço

Técnica preconizada pela Embrapa, de integrar as três atividades,recupera áreas degradadas e reduz as emissões de gases-estufa

Niza Souza ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2015 | 16h37

Quando herdou a Fazenda Boa Vereda, em Itumbiara (GO), há 15 anos, o engenheiro florestal Abílio Pacheco decidiu continuar o trabalho que vinha sendo feito até então na criação de gado de corte em sistema extensivo. Mas, com pastos cada vez mais degradados e a baixa produtividade, percebeu que precisaria mudar a maneira de manejar a propriedade ou teria de seguir o exemplo de muitos vizinhos: arrendar as terras para usinas de cana.

Disposto a manter sua propriedade produtiva, Pacheco conta que começou a pesquisar alternativas para produzir de forma de mais sustentável e ao mesmo tempo aumentar rendimentos. Em 2005, conheceu o sistema de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), desenvolvido pela Embrapa, do Ministério da Agricultura. E, aos poucos, começou a adotar o sistema. No primeiro ano, reservou 15 hectares e começou com correção do solo e plantio de soja e eucalipto na mesma área, com espaço de 22 metros entre os renques. Após a colheita do grão, deixou o solo descansar na safra seguinte e no segundo ano plantou milho e pasto consorciados. Em seguida à colheita de milho, entrou com o gado. “Nesse estágio, as árvores já suportavam a entrada dos animais sem risco de sofrer danos e o capim estava com excelente qualidade”, lembra o produtor.

Produtividade maior. Em seis anos, Pacheco diz que conseguiu transpor a tecnologia para toda a propriedade, de 250 hectares. Além do claro apelo sustentável, uma preocupação constante na agricultura, para o produtor o sistema mostrou que funciona. “A produtividade do gado passou de 3 arrobas por hectare/ano para 18 arrobas. E, na mesma área, ainda produzi soja e milho, que ajudaram a amortizar os custos de instalação do sistema, sem contar a produção de 42 metros cúbicos de madeira por hectare, que vou começar a colher ainda este ano”, contabiliza o produtor.

É com exemplos como o de Pacheco que a Embrapa tem trabalhado para difundir a tecnologia da ILPF, uma das principais apostas para o País conseguir não só cumprir as metas de redução de emissões de carbono na agricultura, mas garantir que o País contribua para alimentar uma população que em 2050 deve atingir 9 bilhões de pessoas.

Estima-se que o Brasil tenha em torno de 50 milhões de hectares de pastagem em algum estágio de degradação, o que contribui enormemente para a emissão de gases de efeito estufa. É nessas áreas que a ILPF pode ser aplicada.

O presidente da Embrapa, Maurício Antônio Lopes, ressalta que essas áreas deterioradas são o foco para a expansão da agricultura, pecuária e da base florestal brasileira sem que haja necessidade de mais desmatamentos de florestas nativas. Segundo ele, tecnologias que permitam a intensificação do uso de recursos naturais devem receber cada vez mais a atenção da Embrapa. E a ILPF é uma das agendas prioritárias do órgão para os próximos anos.

Base sustentável. “A ILPF tem se destacado entre os modelos produtivos em bases sustentáveis por ser um tipo de produção que integra atividades agrícolas, pecuárias e florestais em uma só área, concomitantemente, promovendo adequação ambiental e a viabilidade econômica”, diz.

O sistema tem sido adotado em todo o País, com maior representatividade no Centro-Oeste e Sul. Atualmente, segundo estimativas da Embrapa, cerca de 2 milhões de hectares utilizam os diferentes formatos da ILPF (há também o método de integração lavoura-pecuária, que não usa florestas mas também recupera pastagens) e a projeção é de que, para os próximos 20 anos, possa ser adotada em mais de 20 milhões de hectares degradados. Até 2035, estima o pesquisador Ademir Hugo Zimmer, da Embrapa Pecuária de Corte, de Campo Grande (MS), é possível, por exemplo, dobrar a produção de carne bovina no Brasil apenas recuperando essas áreas. “A perspectiva é expandir o sistema ILPF mais rapidamente agora, com o apoio do governo e de empresas privadas”, destaca Zimmer, citando o Plano Setorial de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura, o chamado Plano ABC, do Ministério da Agricultura.

A expansão da área com a ILPF é uma das diretrizes do Plano ABC, que inclui ainda outros programas específicos, como sistema de plantio direto, fixação biológica de nitrogênio e tratamento de dejetos animais. Tudo, também, com o objetivo final de reduzir a emissão de gases de efeito estufa no setor agropecuário dentro dos compromissos assumidos pelo País. O plano prevê a ampliação da ação de sistemas ILPF em 4 milhões de hectares e recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens. “O ABC é talvez a maior e mais ousada plataforma de redução das emissões de gases-estufa na agricultura em adoção no mundo”, acredita Lopes, da Embrapa.

Floresta. Outro forte apelo do sistema é o aumento da demanda por madeira. A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) estima que, até 2030, o consumo mundial de madeira em toras atingirá 2,4 bilhões de metros cúbicos. Somente a demanda do mercado interno brasileiro poderá atingir 300 milhões de metros cúbicos, o que significa 2,5 vezes mais do que é plantado atualmente. “A pergunta é: de onde virá, quem produzirá e como será produzida essa madeira?”, diz o pesquisador Lourival Vilela, da Embrapa Cerrados, de Brasília (DF).

Essas dúvidas apontavam para a necessidade de se desenvolver um trabalho para aumentar a produção sustentável de madeira. “A partir disso, intensificamos os estudos nessa área. Já tínhamos um trabalho forte na integração lavoura-pecuária; bastou inserir a floresta plantada. Hoje, temos percebido adesão de grandes propriedades, principalmente com foco no eucalipto, mas já temos grupos introduzindo espécies, como cedro australiano e mogno africano”, enfatiza Vilela.

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