Ed Ferreira/AE
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Fluxo de dólares dispara e moeda cai para R$ 1,536

Governo deve anunciar hoje medidas para tentar conter a derrocada do dólar que atinge o menor valor em mais de 12 anos

Adriana Fernandes e Fabio Graner / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2011 | 00h00

Os investidores voltaram a trazer uma enxurrada de dólares para o mercado brasileiro. Depois de terem tirado recursos do País em junho, a entrada de moeda superou as saídas em quase US$ 11 bilhões nas primeiras três semanas de julho. O resultado prático foi sentido ontem no mercado de câmbio, com a moeda americana amargando a quinta queda consecutiva ante o real.

O governo deve anunciar ainda hoje novas medidas para tentar conter a derrocada do dólar, que tem o menor valor em mais de 12 anos. A principal razão por trás da contínua desvalorização da moeda americana é a apreensão dos investidores em relação às negociações entre a Casa Branca e o Congresso dos EUA sobre o aumento do limite de endividamento do país.

Se a elevação não sair até terça-feira da semana que vem, a maior economia do mundo terá de escolher quais as contas irá pagar, um processo de calote inédito para Washington.

Esse clima de indefinição contribuiu para que o dólar caísse ontem 0,45%, para R$ 1,536, o menor valor desde 15 de janeiro de 1999. No início do dia, a moeda chegou a ser negociada a R$ 1,52, o que fez com que o Banco Central atuasse de maneira agressiva no mercado. Ao todo, o BC fez quatro leilões de compra de moeda, mas conseguiu apenas amenizar as perdas.

Aviso. O primeiro sinal dado pelo governo de que novas medidas seriam tomadas veio do próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, anteontem em São Paulo. O recado foi reforçado ontem, durante a reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), no Palácio do Planalto, quando o ministro avisou que o governo adotaria novas medidas cambiais e comerciais para combater práticas desleais de concorrência e a desvalorização "artificial" de moedas estrangeiras.

"Não vamos deixar a guerra cambial nos derrotar", afirmou Mantega a uma plateia de empresários, sindicalistas e integrantes do governo que participavam do encontro. No início da noite, assessores da Fazenda informaram que o ministro faria hoje o anúncio das medidas, mas evitaram dar detalhes sobre o que deverá ser divulgado.

Efeito colateral. O bom desempenho da economia brasileira, em comparação com a combalida situação dos países desenvolvidos, também tem funcionado como um forte atrativo de dólares para o País.

Até mesmo medidas adotadas pelo governo brasileiro para tentar conter a valorização do real acabaram provocando um efeito colateral que contribuiu para aumentar a entrada da moeda americana no Brasil.

No início do mês, o BC limitou o espaço dos bancos para apostarem na valorização do real. Para se adequarem à nova regra, as instituições financeiras promoveram uma agressiva redução de suas exposição à variação do dólar.

A chamada "posição vendida" em câmbio atingiu US$ 8,13 bilhões no dia 22 de julho, quase a metade dos US$ 14,67 bilhões verificados em junho.

O problema é que, para desmontar parcialmente essas apostas, os bancos foram buscar dinheiro fora do País, movimento que acabou diminuindo o impacto da medida do BC. As instituições tomaram empréstimos no exterior, com prazos mais longos, para fugir do imposto de 6% cobrado dos financiamentos com prazo inferior há dois anos.

Com isso, a chamada taxa de rolagem - que mede as renovações de financiamentos - atingiu 1.267% em julho. Ou seja, além de renovar o que já tinha sido tomado, vários empréstimos novos foram fechados. Com esse movimento, o fluxo de dólares, neste mês, disparou, atingindo US$ 10,9 bilhões.

Na prática, a trava imposta pelo governo no início do mês provocou efeito indesejável no fluxo cambial e não conseguiu nem sequer interromper a alta do real, que já se valorizou 1,6% neste mês. / COLABORARAM RENATA VERÍSSIMO E EDUARDO RODRIGUES

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