FMI chega para analisar Argentina com rigor

Uma missão "limitada" do Fundo Monetário Internacional (FMI) desembarca nesta quinta-feira na capital argentina para começar as conversas prévias que posteriormente - se tudo correr bem - podem ser seguida por uma missão definitiva, de caráter puramente negociador.O FMI chegará com olhar mais crítico que o costumeiro, já que desde a última visita de uma missão do organismo financeiro, em março, o setor mais "suave" do Fundo em relação ao "problema argentino" foi deslocado a favor da "linha-dura".O próprio ministro da Economia, Roberto Lavagna, ilustrou nesta quarta-feira ao bloco de deputados do partido Justicialista (Peronista) como pensa o FMI: "Nós, sobre o acordo, estamos vendo um copo meio cheio. Mas o FMI enxerga o copo meio vazio."O ministro Lavagna disse aos deputados peronistas que existe a "necessidade de um acordo com o FMI", embora tenha admitido que "isso não significa que vá entrar dinheiro para a Argentina". Lavagna explicou aos parlamentares que "o acordo servirá para pagar os compromissos de julho e setembro".A Argentina precisa pagar US$ 9 bilhões de dívidas que possui com os organismos financeiros internacionais ainda neste ano. Segundo o ministro, se o acordo não sair, "o panorama será muito sombrio". O deputado peronista José Díaz Bancalari afirmou que Lavagna disse durante a reunião que a idéia seria obter um adiamento do pagamento das dívidas dos anos 2002 e 2003.Extrao-ficialmente divulgou-se em Buenos Aires que, diante da intenção do Fundo de adiar um pouco mais o envio de uma missão, durante a última conversa telefônica com a vice-diretora do Fundo, Anne Krueger, Lavagna teria ameaçado: "Se quiserem, podem adiar a missão para setembro. Mas aí, vocês terão que negociar com outro ministro e outro governo".A missão pressionará mais uma vez o governo Duhalde para que complete a assinatura dos acordos de ajuste fiscal por parte das províncias. Além disso, o Fundo espera ouvir da equipe de assessores de Lavagna uma versão aceitável para o fim do "corralito" (semicongelamento de depósitos bancários). Outra exigência pendente que o FMI fez e o governo Duhalde está adiando é a assinatura do decreto presidencial que elimina a lei de subversão econômica.Outro sinal de que o FMI ainda observa a Argentina com reticência é a falta de um mecanismo que impeça a escalada da inflação. Depois que a missão "de exploração" analisar os números da economia argentina, viria -uns 15 dias depois - uma missão negociadora. Desta forma, calcula-se que, se tudo correr bem para o governo Duhalde, o acordo com o FMI poderia ser assinado em 45 dias.A missão negociadora, que viria posteriormente seria comandada pelo novo chefe do Departamento Ocidental do FMI, o economista indiano Anoop Singh. Até a semana passada Singh foi o chefe da missão do Fundo para a Argentina. A missão "limitada" será liderada pelo inglês John Thorton.O caráter "limitado" da missão que chega nesta quinta-feira é um sinal claro de que em Washington, nos corredores do Fundo Monetário, ainda não existe uma certeza de que o acordo com a Argentina poderia ser possível. Somente o medo de que a crise argentina contagie irremediavelmente outros países da região, como o Brasil, poderia acelerar as negociações.Na reunião que teve com os deputados peronistas, o ministro Lavagna pediu que não seja aprovada a lei de imunidade que é solicitada pelo presidente do Banco Central, Mario Blejer.O presidente do BC pedia imunidade para ele e a diretoria do organismo como forma de evitar eventuais processos na Justiça por causa do "corralito" ou da diminuição das reservas internacionais que diariamente são drenadas para impedir uma alta do dólar.Depois que expôs sua posição contra a eventual impunidade dos funcionários do BC, Lavagna foi aplaudido pelos deputados peronistas.Analistas consideram que esta indisposição em aprovar a imunidade apressaria a saída de Blejer do Banco Central. Poucas horas antes disso, em declarações ao jornal El Cronista, Blejer havia declarado que ficaria no cargo até "deixar as coisas em ordem para elaborar e terminar o programa monetário".Além disso, Lavagna referiu-se à solidez dos bancos instalados na Argentina. Segundo o ministro, os bancos não receberão mais redescontos. Lavagna comentou com os deputados que as instituições financeiras que tiverem que cair, vão cair.Leia o especial

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