Fabian Bimmer/Reuters
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Comércio deve ser diversificado para enfrentar choques como pandemia e guerra, diz FMI

Fundo Monetário Internacional (FMI) afirma que a melhor resposta não é desmantelar as cadeias de suprimentos globais, mas diversifica-las

Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2022 | 14h17

Um comércio mais diversificado pode ser a saída para proteger a economia global de choques como aqueles causados pela pandemia de covid-19 e a invasão russa à Ucrânia, alerta o Fundo Monetário Internacional (FMI) em estudo divulgado nesta terça-feira, 12. Embora vá de encontro com o desmonte recente feito no processo de globalização, uma cadeia de fornecedores múltipla poderia reduzir quase à metade as perdas de eventos extremos para o Produto Interno Bruto (PIB) dos países, conforme o documento.

"Aumentar a resiliência da cadeia de suprimentos é importante para lidar não apenas com emergências de saúde como a pandemia, mas também outros tipos de choques, como a guerra na Ucrânia, ataques cibernéticos e eventos climáticos extremos relacionados às mudanças climáticas", afirma o FMI, em relatório publicado hoje. "Desmantelar as cadeias de valor globais não é a resposta - mais diversificação, não menos, melhora a resiliência", acrescenta.

A diversificação é, segundo o FMI, essencial na construção de uma cadeia de suprimentos resiliente. Parte desse trabalho está nas mãos das empresas, mas, conforme o relatório do Fundo, os governos também podem desempenhar um "papel útil" nesse processo. Dentre as ações que a gestão pública pode propiciar, o FMI cita o preenchimento de lacunas de informação nas cadeias de suprimento, investimento em comércio e infraestrutura digital, além da redução de custos e de incertezas políticas.

Como exemplo, o Fundo vê a vacinação em massa como um "fator crucial" para mitigar futuros choques relacionados à covid-19. O Brasil não é mencionado no relatório, mas foi um dos países em que a imunização foi desencorajada pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, que mudou o tom após a queda de sua popularidade nas pesquisas de opinião.

Análise feita pelo Fundo mostra que a diversificação diminui "significativamente" as perdas econômicas globais em resposta a interrupções no fornecimento. Segundo o relatório, em um cenário de elevada diversificação, as perdas econômicas podem ser reduzidas quase pela metade.

Além disso, um comércio com múltiplos fornecedores também diminui a volatilidade para o desempenho da atividade econômica quando uma série de choques afeta mais de um país, com alguma correlação entre esses mercados. De acordo com o FMI, essa redução pode ser de cerca de 5%.

A redução da diversificação, por outro lado, aumenta a volatilidade, conforme o relatório. Nesse sentido, o FMI defende, no documento, a importância de se identificar as oportunidades comerciais, que podem aumentar a resiliência da economia mundial diante de uma série de choques.

"Por outro lado, a diversificação oferece pouca proteção contra choques excepcionalmente altamente correlacionados", observa o Fundo, no documento, citando o impacto da pandemia em seus primeiros quatro meses, quando o PIB mundial cai na mesma proporção, independentemente do nível de diversificação.

De acordo com o relatório do Fundo, diante da rapidez com a qual a covid-19 se espalhou pelo mundo, esperava-se um "colapso dramático" nos comércios. Os lockdowns impostos para controlar o vírus representaram 60% da queda vista nas importações durante o primeiro semestre de 2020, conforme o FMI. Os efeitos da pandemia foram de curta duração, diz o Fundo, sugerindo que as cadeias globais de suprimentos eram resilientes, além do fato de que o trabalho remoto ajudou a contornar os impactos dos bloqueios.

Segundo o FMI, a análise sobre as cadeias de suprimentos foi concluída no início deste ano, ou seja, antes da invasão da Ucrânia pela Rússia e, portanto, não se debruça nos impactos da guerra para o comércio global e as cadeias de valor. O estudo integra o capítulo 4 do relatório "Perspectiva Econômica Global", que será divulgado na íntegra na semana que vem, em Washington, durante as reuniões de Primavera do FMI.

 

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