FMI e Brasil discutem propostas de novo acordo

O Fundo Monetário Internacional (FMI) e o governo já começaram a discutir propostas para um possível novo acordo financeiro, segundo uma pessoa que acompanha de perto as negociações informais com o Fundo.A vice-diretora-gerente do FMI, Anne Krueger, não quis confirmar oficialmente o início das negociações, mas admitiu, nesta quinta-feira, estar estudando a possibilidade de um acordo com as autoridades brasileiras. "Obviamente, a situação do mercado é preocupante, e discutimos as possibilidades prováveis", incluindo um novo acordo, disse ela."Discutimos possibilidades variadas, o que está levando os mercados a se comportarem desta maneira, os possíveis desbobramentos daqui para frente, o que faz sentido fazer enquanto temos um programa com o Brasil, que só termina em 14 de dezembro. Então, nesse sentido, estávamos discutindo." Mas ela negou estar em negociações oficiais: "Estamos negociando um programa, temos um cronograma definido, coisas como essas? Não".Embora as negociações ainda não sejam oficiais, a pessoa familiarizada com as reuniões diz que foram discutidas nesta semana, nas conversas entre integrantes do sistema financeiro, Anne Krueger e o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, três propostas a serem inseridas na costura do acordo com o FMI.A primeira proposta diz respeito ao deslocamento, por 18 meses, de amortizações da dívida externa prevista para 2003. Esse descolamento empurraria uma soma de US$ 11 bilhões de débitos com instituições multilaterais. A medida agradaria a todos os candidatos à Presidência da República, fornecendo oxigênio vital para quem vencer as eleições.A segunda proposta se concentra na redução do piso de reservas líquidas exigidas pelo FMI, de US$ 15 bilhões para US$ 12 bilhões, diz a mesma fonte. A autorização geraria uma folga maior para o BC, disponibilizando recursos extras para que a autoridade monetária possa atender à demanda de liquidez do sistema financeiro.A terceira proposta também trataria da liquidez do sistema. Ela sugere que o FMI permita o fornecimento de linhas externas pelo BC de maneira que essa conta não entre na subtração do piso de reservas líquidas determinado pelo Fundo. Isto é, ao fazer as vezes de financiador de operações comerciais externas, o BC não teria como freio o piso das reservas líquidas. Essa talvez seja a sugestão mais importante para curto prazo, diante da atual escassez de linhas comerciais, que não dá sinais, por ora, de reversão.As três medidas independem de uma concordância formal por parte dos candidatos à Presidência da República, diz a fonte. Anne Krueger, no entanto, disse nesta quinta em São Paulo que, "se, na opinião de todos, fosse necessário" um acordo com o FMI antes das eleições, "teria de haver algum tipo de compromisso por parte dos principais agentes políticos", já que qualquer novo programa se estenderia para além da transição de poder.Mas, segundo a fonte próxima das conversas, o FMI estaria exigindo um superávit fiscal mínimo de 3,75%, inflação baixa e a manutenção dos contratos assinados, questões com as quais os candidatos já vêm se comprometendo, mesmo que apenas em discursos.Anne admite que o estouro da meta de inflação neste ano está preocupando o FMI. "Isso tem sido uma fonte de preocupação há algum tempo. Em revisões anteriores do programa, diretores-executivos já manifestavam alguma preocupação a respeito da meta. Mas até agora essa questão não foi uma das principais. Deve se tornar uma questão importante agora, na próxima revisão."A diretora do Fundo disse que a relação entre a dívida e o Produto Interno Bruto, cujo aumento foi um dos fatores que derrubaram os mercados brasileiros nesta quinta, por si só não é preocupante, desde que não seja absurdamente alta, quando os fundamentos da economia estão saudáveis."Acho que todo mundo concorda em que, no decorrer de, digamos, a próxima década, seria desejável para o Brasil que a relação entre dívida e PIB diminuísse. Não acho que um ou dois pontos porcentuais no momento são piores do que as questões daqui para a frente. E o superávit de 3,75% dá algum conforto."Anne esclareceu que o propósito de sua visita ao Brasil foi participar de um encontro da Sociedade de Econometria, a qual acompanha "há anos", na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, não para negociar um novo acordo com o governo. "Como é de praxe nessas visitas, também nos encontramos com nossos anfitriões."

Agencia Estado,

25 de julho de 2002 | 21h30

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