FMI elevará previsão do PIB mundial de 2010 para 3%

O diretor adjunto o Fundo Monetário Internacional (FMI), Murilo Portugal, afirmou hoje que, mesmo com os sinais de recuperação da economia mundial, ainda existe o risco de que essa retomada não seja sustentável. Segundo ele, a projeção do FMI para o crescimento da economia mundial em 2010 foi revisado de 2,5% para 3%. O anúncio deverá ser feito oficialmente amanhã, segundo ele. O FMI também melhorou a projeção de crescimento da economia global para este ano, de -1,3% para -1%. Portugal atribuiu essa revisão aos efeitos das políticas de estímulos fiscais e monetárias adotadas pelos governos.

LUCINDA PINTO, Agencia Estado

28 de setembro de 2009 | 13h43

Apesar dessa revisão positiva, o diretor adjunto do FMI afirma que há motivos para dúvidas sobre a continuidade da trajetória de recuperação nos próximos anos. Isso porque, segundo ele, o desemprego deve continuar elevado em 2009 e 2010 nos países desenvolvidos, o que limita a expansão do consumo nesses países. Além disso, os bancos dos países desenvolvidos não foram suficientemente capitalizados para voltar a oferecer crédito ao setor privado. "A oferta de crédito vai se expandir pouco nos Estados Unidos e na Europa e, por isso, sugerimos a manutenção das políticas de estímulos governamentais em vigor", afirmou.

Por fim, Portugal afirma que a recuperação que está em curso é motivada por elementos de natureza transitória - recomposição dos estoques da indústria e os pacotes de estímulo do governo - que tendem, portanto, a perder força. "O FMI tem recomendado aos países que tenham crescimento fraco e que tenham condições fiscais a manterem seus estímulos monetários e fiscais", afirmou. Murilo Portugal participou hoje do Congresso da Indústria "O Brasil após a crise", promovido pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Segundo Portugal, o FMI preparou um estudo para avaliar o impacto, no médio prazo, dessa crise, no potencial de crescimento dos países. Essa análise, que será publicada no estudo sobre as perspectivas da economia global que o FMI vai divulgar esta semana, considerou o que aconteceu com as economias sete anos após 88 crises financeiras que ocorreram nos últimos 40 anos, tanto em países emergentes como em países desenvolvidos. E também o que ocorreu após cinco grandes crises internacionais nos últimos cem anos. O que se percebeu é que, após esse tipo de crise, há uma queda média de cerca de 10 pontos porcentuais no produto potencial per capita ao longo dos sete anos que sucederam a crise.

Ou seja, embora as taxas de crescimento se recuperem em relação ao que havia anteriormente, o mesmo não ocorre com o nível de renda per capita. "O país volta a crescer às mesmas taxas, mas com uma base menor. Isso acontece porque o capital por trabalhador empregado, o emprego e a produtividade não retomam ao que existia antes da crise", afirma. Mas, por ser uma média, o resultado mostra variações entre países. E ficou claro que um quarto dos países analisados tiveram recuperação mais favorável dependendo das condições iniciais de crescimento econômico e inflação; da política que os países adotaram logo após a crise; e também da capacidade desses governos implementarem reformas estruturais.

Embora o FMI considere que ainda não seja o momento de os governos eliminarem os estímulos econômicos, Portugal diz que não é cedo para que se comece a avaliar de que forma isso será feito. "É preciso discutir a intensidade, o momento certo e a melhor sequência de suspensão dos estímulos", afirma. Além disso, os países desenvolvidos terão como desafio buscar a sustentabilidade fiscal, uma vez que o custo fiscal da crise foi elevado.

Segundo ele, o déficit público dos países desenvolvidos fez a dívida pública projetada crescer de uma média de 75% do PIB em 2008 para 118% do PIB em 2014. Nesse ano, quase todos os países do G-7, com exceção do Canadá, devem ter dívida de 90% do PIB . "É uma situação que não tem precedentes em tempos de paz", afirma. Ele observa que, a cada um ponto porcentual de crescimento nos países avançados, mantido por um prazo de dez anos, há uma redução da dívida em 24 pontos porcentuais do PIB. Mas, ainda assim, só o crescimento não será suficiente para equilibrar as contas. Ele diz que os países precisam aumentar o superávit primário, porque também existe o problema do envelhecimento da população nos países desenvolvidos, o que levará a pressões sobre os regimes de saúde e previdenciário. "É importante, portanto, começar a discutir logo essas reformas, que demandam um prazo longo para serem implementadas", afirmou.

Murilo Portugal destacou a importância de os países desenvolvidos darem sequência aos programas de saneamento do sistema financeiro. Ele lembrou que, nos EUA, os bancos já reconheceram perdas de US$ 600 bilhões e já levantaram US$ 490 bilhões de capital novo. Já na Europa, o progresso tem sido mais lento. Mas, tanto nos EUA quanto na Europa, Portugal afirma que novas perdas ainda vão ocorrer, com a deterioração da qualidade dos empréstimos. "Por isso, o FMI tem essa visão de continuar no processo de recuperação financeira dos bancos", afirmou.

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