FMI exige reestruturação de bancos públicos argentinos

O Fundo Monetário Internacional (FMI), que enviou nesta semana mais uma missão técnica a Buenos Aires, condicionou qualquer ajuda financeira à Argentina a uma imediata reestruturação dos bancos públicos do país e à definitiva interrupção da emissão de bônus provinciais. Os técnicos do FMI, liderados por John Thornton, também não gostaram nem um pouco da decisão do Banco Central de controlar, a partir de hoje, o câmbio. Ontem, o BC baixou uma série de medidas que impõem limites à remessa de divisas por parte das empresas endividadas em dólares.Fontes próximas ao Ministério de Economia informaram que o Fundo começou a impor datas e prazos para a execução do programa de reestruturação bancária e, caso as exigências não sejam cumpridas, as negociações serão consideradas inócuas. Hoje cedo, o secretário do Tesouro norte-americano, Paul O´Neill, criticou o governo argentino que, de acordo com ele, ainda não conseguiu criar uma base para o crescimento sustentável da economia do país. Em entrevista a um canal de televisão, O´Neill afirmou que os Estados Unidos vêm trabalhando ativamente para ajudar a Argentina. Porém, acrescentou que certas medidas não podem ser impostas de fora, já que elas deveriam vir de dentro dos países.A eventual interrupção das negociações entre o governo do presidente Eduardo Duhalde e o FMI poderá complicar mais ainda a situação financeira da Argentina, que tem compromissos a serem honrados até o final deste ano com os principais organismos multilaterais de financiamento. No dia 9, por exemplo, o país tem a pagar US$ 2,7 bilhões ao Fundo, ou quase 1/3 das exíguas reservas internacionais no caixa do BC (US$ 9,102 bilhões, até 30 de agosto).Sem recursos em caixa, a Argentina terá de adiar esse pagamento. Mas, para isso, precisaria de aval do Fundo. Caso contrário, terá de decretar moratória, o que vem sendo evitado ao máximo. Adiar esse pagamento, no entanto, seria uma solução transitória, de acordo com economistas da Fundação Capital consultados pela Agência Estado, já que em outubro vencem outros US$ 800 milhões de débitos com o Banco Mundial (Bird), que admite atrasos de apenas 30 dias. Isto é, a Argentina teria de pagar esse montante, no máximo, em novembro.Em dezembro vencem outros US$ 850 milhões com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Esse pagamento, assim como aquele que precisa ser feito ao Bird, pode também atrasar somente 30 dias. As perspectivas para o primeiro trimestre de 2003, no entanto, são ainda piores. Naquele período, a Argentina precisa pagar ao Fundo US$ 3,912 bilhões.Em janeiro, por exemplo, vencem US$ 998 milhões. Em fevereiro não há pagamento a fazer, mas, em março, o compromisso do país será de US$ 2,914 bilhões, de acordo com dados da própria Secretaria de Finanças do Ministério de Economia. Ao todo, no próximo ano, a Argentina terá de desembolsar US$ 10 bilhões. Vale lembrar que, no dia 30 de março, serão realizadas eleições presidenciais.A dúvida é se vale a pena ficar com as reservas atuais ou gastá-las para honrar os compromissos e escapar da moratória. "Acredito que pelo menos o FMI deverá conceder um ?waiver? (vale) para as parcelas vencem nos próximos meses", disse Guillermo Corzo, economista da Fundação Capital. Para isso, no entanto, o presidente Eduardo Duhalde precisará de muita sorte ou jogo de cintura, para enfrentar a situação até se desfazer da presidência. "O problema é que, hoje, o Fundo não consegue encontrar uma autoridade argentina que se comprometa, como no Brasil, a cumprir o que eventualmente venha a ser assinado", acrescentou Corzo.Mas como sair do fundo sem o Fundo? Ninguém na equipe econômica sabe. A despeito disso, as perspectivas de acordo estão cada vez menores porque a administração Duhalde não conseguiu, até agora, adotar medidas mais duras para facilitar a transição ao próximo presidente. Não se trata apenas de resolver o "corralito" financeiro ou os 13% de reposição salarial que terá de ser dada ao funcionalismo público, por ordem da Justiça. Trata-se também da questão fiscal. O superávit primário de 5,6 bilhões de pesos (US$ 2,01 bilhões) dificilmente será alcançado, apesar da inflação, que pode chegar a 80% em 2002, de acordo com estimativas da Fundação Capital.Em agosto, a inflação deve ficar em torno de 2,5%. Com isso, a taxa acumulada nos oito primeiro meses deverá se aproximar de 40%, já que até julho a inflação registrava alta de 34,7%. Os preços no atacado, no entanto, já mostram elevação de 105,6% nesse mesmo período.

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