FMI mexe nas regras de conduta sexual

Em meio ao escâdalo com Strauss-Kahn, instituição reformula normas de conduta interna

Binyamin Appelbaum e Sheryl Gay Stolberg, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2011 | 00h00

O Fundo Monetário Internacional (FMI) é uma ilha internacional no meio da capital americana. É um lugar de atividades competitivas dominado por economistas machos-alfa. Os dias são longos, e os funcionários - homens e mulheres - trabalham durante semanas em missões externas. É um clima em que romances florescem - muitas vezes, a linha entre relacionamento e assédio pode ser cruzada.

Apesar de alguns indícios pontuais - algumas mulheres evitam usar saia temendo atrair uma atenção indesejada, enquanto outras comentam nos corredores o comportamento de chefes mais "saidinhos" -, uma pesquisa interna detectou poucas restrições à conduta do alto escalão do Fundo. O levantamento concluiu que "a falta de escândalos éticos públicos parece mais uma consequência de sorte que de bom planejamento e ação".

Assim é a vida no FMI, órgão financeiro internacional que, sob a liderança de Dominique Strauss-Kahn, tornou-se uma força emergente na regulamentação da economia global.

Com a recente prisão de Strauss-Kahn e seu indiciamento por acusações de tentativa de violentar uma camareira de hotel em Nova York, os holofotes foram voltados para a cultura da instituição. Foram retomadas perguntas sobre um episódio de 2008 em que o FMI decidiu que Strauss-Kahn não havia violado nenhuma regra ao ter relações com uma funcionária.

O que pode chamar ainda mais atenção é a revelação de um caso envolvendo um potencial sucessor de Strauss-Kahn. Enquanto trabalhava no Banco Mundial, Kemal Dervis, da Turquia, teve uma ligação amorosa com uma mulher que agora trabalha no FMI, segundo uma fonte com conhecimento direto do relacionamento.

Entrevistas e documentos pintam um quadro do fundo como uma instituição cujas normas e costumes sexuais são marcadamente diferentes dos vigentes em Washington - o que deixa suas funcionárias vulneráveis ao assédio indesejado.

Investigação. Em 2007, o FMI não quis investigar uma queixa de uma assistente que havia tido um caso com seu supervisor. Ela acusou o chefe de ter avaliado seu desempenho negativamente para convencê-la a permanecer no relacionamento. Os dirigentes disseram à mulher que o supervisor planejava se aposentar - portanto, estava fora de questão investigar as acusações.

O dirigente, cujo nome não é mencionado nos autos, disse aos investigadores que ele também havia mantido relações sexuais com uma segunda funcionária e que não achava que tivesse agido de maneira indevida.

Em outro caso, uma jovem afirmou que um administrador sênior de seu departamento começou a lhe enviar e-mails cada vez mais explícitos. Ela se queixou a seu chefe, que não tomou nenhuma medida. Depois disso, a jovem optou por deixar a instituição, há dois anos.

"Eles disseram que levaram o caso a sério, mas dois minutos depois mudaram de opinião e passaram a agir como se tudo estivesse normal com a pessoa que fizera aquilo comigo", disse a mulher, que pediu anonimato porque ainda trabalha na comunidade de desenvolvimento internacional. "Ele não foi punido. Nada aconteceu."

As leis americanas não se aplicam à instituição. Segundo especialistas e ex-funcionários, as tradicionais regras do FMI, que vigoraram até 6 de maio deste ano, encorajavam administradores a cortejar mulheres com as quais trabalhavam. "Relações pessoais íntimas entre supervisores e subordinadas não constituem, em si, assédio", dizia a norma.

O novo código de conduta, adotado há três semanas, especifica que relacionamentos íntimos com subordinados "provavelmente resultarão em conflitos de interesse" e precisam ser comunicados ao alto escalão. "Isso é reconhecer que relacionamentos às vezes surgem no local de trabalho", afirmou Virginia E. Canter, que entrou no FMI no ano passado com a responsabilidade de investigar alegações de assédio sexual.

Ela disse que a instituição tomou uma série de medidas para proteger funcionários. "Mas não significa que não somos sensíveis a essa questão, e investigaremos somente se houver evidências de que alguém foi assediado." Segundo Virginia, sob as novas normas, o fundo não desconsideraria novamente queixas de funcionários como a da assistente que tinha um relacionamento com o chefe. "Isso absolutamente não teria ocorrido hoje em dia", disse ela. "Investigaríamos a questão."

O FMI, criado em 1945, tem 2,4 mil funcionários avaliando a saúde econômica de países, a partir de dois enormes edifícios em Washington e em viagens regulares ao exterior. Quando países recebem dinheiro do Fundo, tipicamente precisam aceitar a adoção de reformas econômicas, e funcionários são enviados para observar seu progresso. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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