FMI não vê descontrole da inflação brasileira

Das quase cinco horas de reunião da equipe do Fundo Monetário Internacional (FMI), hoje pela manhã, com os técnicos do Banco Central, a maior parte foi destinada à análise das contas externas brasileiras. Da última vez que a missão esteve oficialmente no Brasil, em junho, os números eram bem diferentes dos atuais.No terceiro dia de encontros com autoridades do governo e representantes do setor privado, os técnicos do FMI disseram não temer um descontrole da inflação. Segundo Lorenzo Perez, diretor-assistente para o Hemisfério Ocidental do Fundo, "não há risco" disso acontecer este ano e nem em 2003. "Ainda não estamos falando disso. A inflação subiu mas acho que não há risco (de haver descontrole)", afirmou.Em junho, o ajuste externo apresentado ao FMI estava ancorado muito mais na queda das importações em função da retração na economia e na alta do dólar do que no aumento das exportações como ocorre atualmente. Além disso, a saída de recursos por meio das contas de não residentes (CC5) havia subido para o patamar de US$ 1 bilhão por mês.Apesar de as remessas via CC5 continuarem elevadas, de junho para cá houve uma mudança significativa no desempenho externo do País. O crédito para as empresas brasileiras ainda não se normalizou mas a dependência externa diminuiu. A projeção do déficit em conta corrente para o ano caiu de US$ 18 bilhões para US$ 11 bilhões. E o principal fator para isso foi a expectativa de um saldo comercial positivo de US$ 11 bilhões contra US$ 5 bilhões estimados no final do primeiro semestre."Estamos examinando os dados. Os números do balanço de pagamentos estão muito bons", resumiu Lorenzo Perez, na saída do encontro. Ex-chefe da missão do Fundo para o Brasil, ele veio acompanhando Jorge Marquez-Ruarte que assume a coordenação dos trabalhos a partir desta revisão. Os técnicos do FMI estiveram com representantes dos departamentos Econômico e de Pesquisa Econômica do BC que explicaram detalhadamente a situação do balanço de pagamentos.Conjuntura"Foi uma reunião de apresentação da conjuntura. Mostramos o ajuste que está ocorrendo no balanço de pagamentos", explicou uma fonte do governo. Após a definição do processo eleitoral, a turbulência no mercado financeiro foi parcialmente revertida, confirmando as expectativas do BC ao revisar, no mês passados, as projeções para as contas externas deste ano e para 2003. Mesmo diante de um cenário internacional ruim, o BC estima que o País conseguirá atrair US$ 16 bilhões em investimentos diretos, valor suficiente para financiar o déficit em conta corrente de US$ 11 bilhões.Num ambiente de escassez de moeda estrangeira, a balança comercial, que é uma fonte importante para trazer dólares para o País, tem registrado resultados maiores do que o esperado. Para o governo estima um saldo comercial positivo de US$ 15 bilhões. Com isso, a expectativa é de que o déficit externo em 2003 caia para US$ 8,9 bilhões.Esse ajuste externo contribui para melhorar a credibilidade do País e retomar o ingresso de outros capitais estrangeiros como financiamentos, empréstimos e aplicações em ações de empresas nacionais. Ainda assim, os dados do BC repassados à missão apontam que a taxa de rolagem das dívidas do setor privado que estão vencendo só deverá se recuperar totalmente no ano que vem. Atualmente, a taxa está em torno de 40%, o que é considerado muito baixo. Isso tem exigido uma atuação mais forte do BC nos últimos meses para suprir a carência de dólares.Além da área econômica, a missão do FMI se reuniu também com técnicos da fiscalização do BC. À tarde, o encontro foi com o ministro do Planejamento, Guilherme Dias, e com o ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente. Amanhã, a missão estará no Rio de Janeiro onde se encontrará com o presidente do BC, Armínio Fraga. Também participarão do encontro, os diretores da área internacional, Beny Parnes, de Política Monetária, Luiz Fernando Figueiredo, e de Política Econômica, Ilan Goldfajn. Logo em seguida, eles retornarão para Brasília onde terão um encontro, às 15 horas, com o ministro da Previdência Social, José Cechin.

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