Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

FMI prevê aumento do desemprego no Brasil devido à atividade fraca

Segundo o relatório anual do Fundo sobre o país, a baixa taxa dos últimos anos 'mascarava' uma deterioração no mercado de trabalho; desaceleração econômica e aumento da taxa de participação podem fazer desemprego aumentar

Álvaro Campos, O Estado de S. Paulo

12 Maio 2015 | 19h01

SÃO PAULO - As análises feitas pela equipe econômica do Fundo Monetário Internacional (FMI) para o relatório anual sobre o Brasil apontam que a baixa taxa de desemprego dos últimos anos "mascarava" uma deterioração no mercado de trabalho. Segundo a instituição, o desemprego deve crescer em função da atividade econômica fraca e do aumento na taxa de participação.

"As quedas mais recentes nas taxas de desemprego refletem uma contração na força de trabalho, que mascara uma paralisação no crescimento do emprego em meio à desaceleração da atividade econômica", diz o relatório, apontando que a geração de vagas na indústria e na construção civil têm caído fortemente desde o início de 2014. "Se a taxa de participação voltar para a média de entre 2008 e 2014, de 56,8%, o desemprego pode subir para 6,5%, tudo mais constante".

O texto aponta ainda que as pressões salariais continuam fortes, com os ganhos reais dos salários subindo acima da produtividade. Isso reflete, em parte, os grandes aumentos do salário mínimo. 

Atividade econômica. O Brasil está em uma situação difícil. Essa é a primeira frase da avaliação anual do FMI sobre a economia brasileira, o chamado "Artigo IV". Em um resumo deste documento, divulgado no mês passado, a instituição reduziu as projeções sobre o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro para contração de 1% este ano e crescimento de 0,9% em 2016.

O FMI afirma que o fraco desempenho da atividade reflete o impacto da baixa competitividade, a erosão da credibilidade das políticas econômicas - devido à persistente deterioração dos resultados fiscais e à inflação acima da meta - e a piora nas condições externas para o País. "Garantir um crescimento forte e sustentável é essencial para consolidar os ganhos impressionantes na inclusão social e requer, entre outras coisas, um reequilíbrio do consumo em direção a um crescimento liderado pelo investimento", diz o relatório.

A instituição avalia que o crescimento decepcionante também é reflexo das medidas recentes de ajuste fiscal, das altas taxas de juros e dos cortes de investimento na Petrobras provocados pelas investigações da operação Lava Jato. Mesmo assim, o FMI argumenta que uma aplicação bem sucedida das medidas de ajuste deve ajudar a melhorar a atividade mais para frente. "O espaço para políticas de estímulo é limitado e o foco deveria ser, por sua vez, aliviar gargalos na oferta e impulsionar a capacidade produtiva."

Para o FMI, o crescimento tende a melhorar no médio prazo, mas o potencial depende muito da implementação de reformas estruturais urgentes. "Os riscos para as projeções são significativamente para baixo e incluem ramificações adversas da atual investigação de corrupção envolvendo a Petrobras, a possibilidade de as metas fiscais não serem inteiramente atingidas e de racionamento de água e energia", explica o documento.

A implementação dos ajustes necessários não vai ser fácil, reconhece o FMI. "Entretanto, qualquer comprometimento no esforço das políticas econômicas pode colocar em risco as projeções de médio prazo, sem gerar nenhum benefício significativo no curto prazo."

Na parte de recomendações, o FMI sugere que a política monetária permaneça apertada e o câmbio continue como a principal ferramenta de absorção de choques externos. "As intervenções (no câmbio) deveriam se limitar a episódios de excessiva volatilidade." O Fundo também orienta que a concessão de empréstimos pelos bancos públicos tenha um papel complementar, atuando em mercados que não são atendidos pelas instituições privadas.

O FMI também diz que ações prudenciais específicas para fortalecer o sistema financeiro, especialmente um endurecimento das exigências de empréstimos para preservar a qualidade dos ativos dos bancos públicos, são "aconselháveis". Isso ajudaria a lidar com vulnerabilidades no sistema que possam surgir em um ambiente marcado pelo crescimento baixo, as condições financeiras mais restritivas e um possível aumento do desemprego. 

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