FMI promete ajudar Brasil, mesmo sem renovação de acordo

O ministro da Fazenda, Antônio Palocci Filho, afirmou na noite de ontem que o governo ainda não decidiu se vai ou não renovar o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Em princípio, no segundo semestre, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva poderia receber a última parcela do programa de transição negociado pela equipe do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, no ano passado, e que envolveu um crédito total de US$ 30 bilhões. O diretor-gerente do Fundo, Horst Koehler, entretanto, deixou a Embaixada do Brasil ontem, após visita ao presidente Lula, declarando que o FMI encontrará um meio de ajudar o Brasil, mesmo se o País não quiser um novo programa. Em sua opinião, os termos definidos no acordo estão sendo cumpridos sem problemas e tudo está "nos trilhos". "Tenho um segredo para lhes contar: o Brasil é um sucesso com o qual os técnicos do Fundo não contavam", afirmou Koehler aos jornalistas.Sobre a renovação do acordo, Palocci afirmou que o encaminhamento da tramitação da Reforma da Previdência no Congresso Nacional, prevista para ser aprovada em setembro, não deverá influenciar a decisão que o governo venha a tomar. "Ainda é cedo para discutir isso. O governo pode ou não renovar o acordo. É uma decisão do governo", insistiu Palocci, pouco antes de deixar Washington junto coma comitiva que acompanhou Lula em seu encontro com o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. Liderança na América LatinaTambém ontem, o presidente Lula conseguiu receber um sinal verde para seu projeto de liderança na América do Sul de quem mais poderia se preocupar com as investidas de um governo de centro-esquerda pela região. Em uma conversa reservada de trinta minutos com o presidente norte-americano, Lula enfatizou como a integração econômica e comercial pode trazer crescimento e estabilidade política para a região, com o cuidado de indicar a seu "parceiro" o quanto esse projeto pode se converter em um bom negócio para as companhias americanas. Lula esclareceu que não pretende levar adiante nenhuma ambição hegemônica na América do Sul e que é preciso ter paciência com o problema dos demais países. Preocupados em não tocar em temas de divergência da política externa de ambos os países, Bush e Lula esquivaram-se da polêmica Cuba. Mergulharam nas dificuldades enfrentadas pela Colômbia e Venezuela e, além da América do Sul, conversaram sobre o processo de paz no Oriente Médio. Novas relaçõesBush, entretanto, mostrou-se particularmente interessado em "conhecer" a iniciativa do Brasil de estreitar suas relações com a África e de montar um clube com os demais "países monstros" - economias em desenvolvimento com população e territórios imensos e com boa parcela de influência nas suas regiões e no plano internacional - África do Sul, Índia, China e Rússia - com as quais o Brasil pretende montar o "Grupo dos Cinco"."O Brasil não quer manter uma relação hegemônica, mas de generosidade com os parceiros mais fracos", afirmou Lula, logo depois das reuniões e do almoço com Bush, na Casa Branca. "Queremos discurtir com os Estados Unidos e a União Européia uma relação de maior liberalidade comercial. Queremos estreitar nossas relações com a China, a Rússia, a Índia, a África do Sul, a Argélia. Mas somos nós que vamos procurá-los. Não ficaremos esperando o contato deles", completou.A lógica dessa política externa "ousada" e pró-ativa apresentada por Lula tem como base iniciativas tomadas pelo governo Fernando Henrique Cardoso. A equipe de Bush estava ciente disso. De acordo com o relato do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, o presidente insistiu que o esforço de integração sul-americana não está orientado apenas por objetivos comerciais, mas traz consigo componentes essenciais para o crescimento econômico e a estabilidade política da região.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.