FMI quer prazo para Argentina flutuar o peso

O Fundo Monetário Internacional recomendou às autoridades argentinas fixar, o quanto antes, uma data para unificar o câmbio duplo que o país adotou na semana passada como saída para a paridade fixa com o dólar e flutuar o peso. Essa é uma das condições para o aprofundamento do diálogo técnico que a instituição iniciou esta semana com o novo governo, enviando dois de seus economistas a Buenos Aires. "No curtíssimo prazo, não tomamos uma posição, mas dissemos e continuaremos a dizer que esperamos que as autoridades implementem um regime (cambial) consistente com um prazo factível e viável para remover e unificar as duas taxas de câmbio o mais cedo possível", disse a diretora-gerente do FMI, Anne Krueger, ontem, nas primeiras declarações públicas extensas feita por um dirigente da instituição desde o colapso da economia argentina. "Não cremos que o câmbio duplo seja sustentável a médio e longo prazo; ele requer vários controles mecânicos muito difíceis de se administrar". Krueger deixou claro que o Fundo quer ver um compromisso do governo do presidente Eduardo Duhalde com os vários elementos de uma política econômica sustentável antes de falar em novos créditos para a Argentina. "O Fundo ajudará com conselhos técnicos e de política econômica à medida em que eles comecem a montar um programa coerente", afirmou ela. "Até que eles façam isso, é prematuro e não há sentido em falar no apoio do Fundo para um programa". A vice-diretora do FMI conversou com os jornalistas depois de participar de uma reunião de três horas com os 24 diretores executivos da instituição. "Estamos todos no Fundo muito preocupados com a situação da Argentina, somos sensíveis à situação social extremamente difícil e sabemos que a nova equipe está formulando a política econômica num contexto que é muito duro", disse ela. "Já deixamos claro que estamos prontos para ajudar a Argentina nesse momento extremamente difícil e estamos e continuaremos em contato estreito com as autoridades". Ela informou que uma "missão monetária" do Fundo estará em Buenos Aires na segunda-feira para assessorar o governo na medidas que precisam ser tomadas a curto prazo. Além da unificação e flutuação do câmbio, estas incluem a suspensão das medidas de controle de capitais introduzidas nas semanas finais da administração de la Rúa, em uma desesperada tentativa para salvar o sistema cambial de paridade com o dólar. "Não se pode manter os depósitos bancários congelados para sempre e as autoridades não estão pensando em fazer isso", disse ela. A questão "é que elas tomem as medidas de curto prazo de maneiras que facilitem em lugar de dificultar o avanço para rápido e eficaz na direção de um sistema mais liberal", explicou. "Não podemos negociar antes disso". O Fundo tampouco iniciará negociações com Buenos Aires antes de se convencer de que Duhalde esteja disposto a assumir a paternidade de um programa de ajustamento que a instituição considere viável. "No momento em que negociarmos, queremos ver os contornos amplos de um plano abrangente sobre como chegar daqui até lá", disse ela. Diplomaticamente, a dirigente do FMI listou as condições que Buenos Aires terá que preencher para receber o respaldo do FMI. "As próprias autoridades já identificaram os principais desafios econômicos imediatos", disse ela. "Alguns são de curtíssimo prazo e elas (as autoridades) precisam descobrir como convertê-las num pacote sustentável a médio prazo". Segundo a dirigente do Fundo, os assessores econômicos de Duhalde "certamente reconheceram que precisam fazer algo sobre o sistema cambial e reconheceram também, corretamente, que precisam salvaguardar o sistema bancário; eles sabem que têm que fortalecer a posição fiscal e que precisam encontrar um regime monetário que permita manter a inflação baixa e, certamente, que precisam reestruturar a dívida (externa)". Kruger indicou que o FMI não subestima os obstáculos que a equipe do ministro Remes Lenicov, ainda em formação, enfrentará para formular uma política adequada, com soluções para todos esses problemas. "Cada uma das peças do quebra-cabeça depende do que você faz com as outras peças", disse ela. Não se trata de estabelecer uma seqüência corretas para essas várias políticas. "Provavelmente seriam um erro fazer isso", afirmou ela. Krueger negou que Buenos Aires tenha comunicado ao Fundo quaisquer números sobre o apoio financeiro que espera receber do Fundo. "Não ouvimos nada diretamente das autoridades e não creio que elas tenham avançado o suficiente nas medidas para tonar possível fazer uma estimativa sobre as necessidades de financiamento", disse ela. "E isso vai depender da maneira como chegarem a este ponto". A vice-diretora gerente sepultou a idéia da dolarização como algo "tecnicamente impossível, hoje". Segundo ela, as autoridades argentinas não estão pensando nisso, mas "em um regime de flutuação cambial e nós aceitamos isso".

Agencia Estado,

12 de janeiro de 2002 | 01h50

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