FMI rebaixa previsão de crescimento dos EUA de 2,8% para 2% em 2014

A justificativa para a revisão do número é o inverno rigoroso, que afetou a atividade econômica no país no começo de 2014

Altamiro Silva Júnior, Agência Estado

16 de junho de 2014 | 10h49

NOVA YORK - O Fundo Monetário Internacional (FMI) rebaixou em um documento divulgado nesta segunda-feira, 16 as previsões para o crescimento dos Estados Unidos em 2014 para 2%, menor que os 2,8% projetados no relatório "Perspectiva Econômica Global" divulgado na reunião da instituição em abril. A justificativa para a revisão do número é o inverno rigoroso, que afetou a atividade econômica no país no começo de 2014.

Depois dos efeitos negativos do inverno no Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre, o FMI destaca que os recentes indicadores sinalizam que a economia está engatando uma recuperação. Por isso, os economistas esperam que a economia norte-americana cresça 3% em 2015, mesmo nível previsto no relatório divulgado em abril.

Além dos números de curto prazo, os técnicos do FMI veem um crescimento potencial, de longo prazo, menor nos EUA, ao redor de 2%, abaixo dos níveis históricos, na casa dos 3%.

O FMI divulgou hoje o chamado Artigo IV dos EUA, um documento anual no qual os economistas da instituição avaliam o desempenho e indicadores econômicos dos países membros. O relatório faz uma série de recomendações a Washington, que incluem mais investimento em infraestrutura, melhora da produtividade, estímulo à inovação, aumento dos salários e manutenção do déficit do governo em uma trajetória sustentável de queda.

No caso da política fiscal, o FMI vê risco a partir de abril de 2015 de novos embates no Congresso por questões fiscais, como os que ocorrem em outubro do ano passado e levaram à paralisação do governo. Por isso, o relatório volta a falar da necessidade de o País dar passos para implementar uma consolidação das contas fiscais mais sustentável e confiável no médio prazo. Com isso, se abriria espaço para políticas fiscais que dariam mais apoio à economia no curto prazo e ajudariam que a retirada dos estímulos monetários pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) seja mais suave e tenha menos impactos negativos nos mercados. 

Juro. A previsão de que a inflação vai seguir abaixo da meta oficial e de que a taxa de desemprego ainda continue aquém do nível de pleno emprego nos próximos dois anos cria condições para que o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) mantenha os juros básicos dos Estados Unidos nos níveis atuais por um prazo além de meados de 2015, que é quando Wall Street espera aumento de taxas, avalia o FMI.

A previsão é que a inflação no país deve continuar abaixo da meta do Fed, de 2%. Para este ano, o FMI prevê que o índice de preços ao consumidor tenha alta de 1,9% e o índice de preços dos gastos com consumo pessoal (PCE, na sigla em inglês), medida preferida do BC norte-americano para a inflação, suba 1,6%. Em 2015, a expectativa é que fiquem, respectivamente, em 1,8% e 1,5%.

Para a taxa de desemprego, a projeção é que o indicador termine este ano em 6,2% e caia para 5,9% no ano que vem. Os EUA só chegariam ao nível de pleno emprego no final de 2017, de acordo com o relatório. Se estas previsões estiverem corretoras, os economistas do FMI avaliam que as taxas de juros do país podem ficar nos níveis atuais por mais tempo.

O mercado de trabalho dos EUA, um dos principais balizadores da política monetária do Fed, tem melhorado, mas está mais fraco do que a recente taxa de desemprego, de 6,3%, sugere, destaca o relatório do FMI. Os salários estão estagnados e a força de trabalho, ou seja, o número de pessoas que está à procura de uma vaga, vem se reduzindo.

O FMI prevê que a elevação dos juros nos EUA terá impactos importantes no mercado financeiro mundial, mesmo se bem comunicada e gerenciada e prevê alterações "significativas" nos fluxos de capitais internacionais e nos preços dos ativos. O contágio ultrapassaria as fronteiras dos EUA e atingiria sobretudo os países com fundamentos mais fracos, destacam os economistas do Fundo.

No documento de hoje, o FMI fala da necessidade de o Fed melhorar ainda mais sua comunicação neste momento. Entre as sugestões, estão a adoção de entrevistas à imprensa após todas as reuniões do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) e a publicação de um relatório trimestral de política monetária reunindo detalhes da visão dos dirigentes do BC sobre as perspectivas econômicas e as incertezas que rondam as estratégias. Este documento teria ainda que conter a visão dos dirigentes contrários à política atual do Fed.

"O prolongado período de taxas muito baixas de juros continua a aumentar a preocupação com a estabilidade financeira", destaca o documento do FMI. O estudo ressalta que muito tem sido feito para reduzir os riscos ao sistema financeiro nos EUA. Os bancos estão mais fortes, os balanços das empresas mais saudáveis e a regulação melhorou. Ao mesmo tempo, o documento chama atenção para novas preocupações, sobretudo com operações fora do sistema bancário. Entre elas, cita o enfraquecimento do padrão de subscrição de bônus em alguns segmentos, como das empresas de maior risco ("high yields"), e a crescente busca por aplicações com maior retorno e mais arriscadas. 

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