Made Nagi/EFE
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FMI reduz a previsão de crescimento do Brasil em 2018 e 2019

As perspectivas para a economia mundial também foram reduzidas pelo Fundo Monetário Internacional que realiza em Bali sua reunião anual com o Banco Mundial

Ricardo Leopoldo, enviado especial, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2018 | 00h07

BALI, INDONÉSIA -  O Fundo Monetário Internacional (FMI), que deu início nesta segunda-feira, dia 8, à sua reunião anual com o Banco Mundial em Bali, na Indonésia, reduziu suas previsões para o crescimento do Brasil para 2018 e 2019, que passam agora a ser de 1,4% e 2,4%, respectivamente, segundo o documento Perspectiva Econômica Mundial, com o título  "Desafios para crescimento constante".  A mudança para baixo da previsão para este ano foi uma das maiores feitas pelo FMI. Em julho, as projeções para o PIB do País estavam em 1,8% para 2018 e 2,5% para 2019. Em abril, o Fundo estimou que a economia brasileira avançaria 2,3% neste ano e 2,5% no próximo.

"A previsão de crescimento para 2018 é menor que a projeção de abril em 0,9 ponto porcentual por causa das interrupções causadas pela greve nacional dos caminhoneiros e pelas condições financeiras externas mais apertadas, que são uma fonte de risco para a perspectiva", destacou o FMI. Para o último trimestre de 2018, o FMI projeta que o PIB do Brasil deve crescer 1,7% ante o mesmo período de 2017 e deve subir 2,5% entre outubro a dezembro de 2019 em relação aos mesmos três meses deste ano.

A instituição multilateral ressalta que o País está numa rota de recuperação, com alta do PIB de 1,0% em 2017, depois de ter passado pela forte recessão de 2015-2016. Contudo, o FMI aponta que a retomada da economia em países emergentes, além de ser influenciada por fatores internos, sofre efeitos do processo de normalização da política monetária nos EUA, que afetou neste ano esses países em geral. O Fundo estima que, no médio prazo, a taxa de expansão do Brasil deve ser de 2,2%, marca que deverá ser alcançada em 2023.

O FMI chama a atenção para dois pontos vitais da política macroeconômica no Brasil: as reformas fiscais precisam avançar e a administração dos juros pelo Banco Central deve continuar acomodatícia. Para os países emergentes em geral com câmbio flutuante, o Fundo recomendou que devem ser limitadas as intervenções oficiais neste mercado.

Equilíbrio fiscal

"A reforma da Previdência Social é essencial para assegurar a sustentabilidade fiscal e garantir justiça, dado que os gastos com pensões são elevados e estão subindo e as aposentadorias são indevidamente generosas para alguns segmentos da população", destacou o Fundo, referindo-se ao Brasil. "Enquanto recentes medidas para elevar a transparência são bem-vindas, o arcabouço fiscal precisa ser reforçado, incluindo o aumento da flexibilidade do Orçamento."

O vice-diretor do Departamento de Pesquisas Econômicas do FMI, Gian Maria Milesi-Ferretti, afirmou que reformas estruturais no Brasil, especialmente a da Previdência Social, "são necessárias para a melhora das condições fiscais" no País.

Ao responder pergunta do Estadão/Broadcast sobre o que o FMI espera do próximo presidente do País na gestão das políticas fiscal e monetária, Ferretti respondeu: "A reforma da previdência é importante para a estabilidade das contas públicas no longo prazo. Com as incertezas nos mercados globais, mudanças fiscais no Brasil tornam-se mais importantes."

Para o FMI, será necessário também "restringir a lei do governo para salários", harmonizar os regimes de impostos federal e dos Estados, melhorar a situação das "finanças dos governos subnacionais", ao mesmo tempo que devem ser protegidos os programas sociais.

Por conta da  fraca recuperação da economia doméstica, o FMI defende que a "política monetária deve continuar acomodatícia no Brasil, onde o desemprego se mantém elevado e a inflação está gradualmente subindo na direção da meta." O Fundo estima que o IPCA deverá atingir 3,7% neste ano e 4,2% em 2019, pois as ações do Copom para administrar a Selic devem colaborar para estimular o nível de atividade e geração de postos de trabalho, ao mesmo tempo que ocorre uma retomada da elevação dos preços de alimentos depois de uma queda expressiva ocorrida com uma excepcional safra em 2017. Para 2023, o órgão multilateral prevê que a inflação atingirá 4,0%.

Com a gradual evolução da demanda agregada no País, o FMI estima também um aumento paulatino do déficit de transações correntes, o qual prevê que atingirá como proporção do PIB 1,3% neste ano e 1,6% em 2019.

Política cambial

O FMI destaca que em países com câmbio flutuante, incluindo o Brasil, "as intervenções" dos seus respectivos bancos centrais "devem ser limitadas para enfrentar condições desordenadas do mercado enquanto preservam suas proteções de reservas." O Fundo destacou que, entre fevereiro e setembro, o real registrou depreciação de 14% ante o dólar, influenciada pela alta dos juros nos EUA e redução de fluxos de capitais em geral para mercados emergentes. A instituição aponta que países com regime de câmbio flexível e nações com baixas vulnerabilidades financeiras registraram "menores danos" para o PIB logo depois da eclosão da crise global de 2008.

De acordo com o Fundo, apesar da profunda recessão, o sistema financeiro no Brasil mostrou ser bem resiliente, embora destacou que ainda falta o avanço da concessão de crédito, sobretudo para empresas não financeiras. O FMI apontou que, apesar de reformas que o País adotou para fortalecer a supervisão e regulação deste setor da economia, há vulnerabilidades, como altas exposições a devedores e também em relação a empréstimos estruturados.

Na avaliação do FMI, medidas adotadas para facilitar o comércio internacional e mudanças estruturais na legislação trabalhista e crédito subsidiado são positivas. "Mas mais reformas são necessárias para incrementar a produtividade, incluindo a melhora da intermediação financeira, investimento em infraestrutura e implementar medidas contra lavagem de dinheiro e corrupção." 

Economia mundial

O economista-chefe do FMI e diretor do Departamento de Pesquisas Econômicas, Maurice Obstfeld, afirmou que o nível de atividade mundial estabilizou-se no patamar de 3,7% de expansão neste ano, marca que deve ser repetida em 2019, e “há nuvens no horizonte”, referindo-se ao aumento de riscos para a expansão global. Ele mencionou a redução de velocidade de crescimento na zona do euro no primeiro semestre de 2018 e o aumento das tensões comerciais entre os governos americano e chinês, com imposição recíproca de tarifas sobre importados.

“A disputa comercial entre os EUA e a China pode romper cadeias de suprimentos globais”, apontou Obstfeld, ressaltando que já há redução de investimentos em máquinas pelo mundo, com a elevação de incertezas sobre o cenário econômico global no médio prazo.

As tensões comerciais entre Washington e Pequim foram o principal fator que levou o FMI a reduzir as previsões de alta do PIB dos EUA e da China em 0,2 ponto porcentual cada um para 2019. A projeção para a economia americana foi reduzida de 2,7% para 2,5% e para o país asiático baixou de 6,4% para 6,2%. Para o Fundo, as reduções de estimativas foram relevantes para reduzir sua previsão para a expansão mundial no próximo ano, de 3,9% para 3,7%.  “Por outro lado, uma solução para as disputas comerciais entre EUA e a China pode elevar as projeções do PIB mundial”, destacou Obstfeld, sem especificar o ano.

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