Yuri Gripas/Reuters
Yuri Gripas/Reuters

FMI reduz projeção de crescimento do PIB brasileiro para 2,1% em 2019

Previsão anterior era de 2,5%; relatório do Fundo culpa desequilíbrios fiscais pela mudança nas estimativas e cita importância da reforma da Previdência para os ajustes das contas do País

Ricarco Leopoldo, correspondente, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2019 | 10h38

WASHINGTON - O Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu a projeção para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2019 de 2,5% para 2,1%. Para o ano que vem, a previsão de alta passou de 2,2% para 2,5%. As estimativas, que atualizam números divulgados em janeiro, constam do relatório Perspectiva Econômica Mundial, cujo título é "Desaceleração de crescimento, recuperação precária", publicado nesta terça-feira, 9. Em outubro, o FMI indicou que a expansão brasileira atingiria 2,4% em 2019 e 2,3% em 2020.

De acordo com o relatório, os desequilíbrios fiscais são um dos principais fatores que pesaram nas alterações das previsões para o PIB do País, além de "rigidez estrutural e termos de troca moderados", que levam o Brasil a ter um crescimento estável, mas sem avanços expressivos.

"No Brasil, a principal prioridade é conter a dívida pública em ascensão, mantendo intactos ao mesmo tempo os necessários gastos sociais", afirma o documento. O FMI ressalta que o teto de gastos introduzido em 2016, que pretende obter uma melhora de 0,5 ponto porcentual do PIB ao ano no resultado primário, é um passo na direção correta.

"No entanto, são necessários mais ajustes", aponta o órgão, ressaltando que é importante "a reforma da Previdência Social para conter os crescentes desembolsos, enquanto protege programas sociais para os mais vulneráveis".

Para o FMI, como a inflação no Brasil está perto da meta, "a política monetária pode continuar acomodatícia para apoiar a demanda agregada, se necessário". O Fundo projeta que o IPCA deverá fechar este ano com alta de 3,6% e o ano que vem com variação de 4,1%.

Com a reforma trabalhista e a redução de subsídios oficiais para a concessão de crédito, os esforços para incrementar a infraestrutura e a eficiência da intermediação financeira ajudarão a elevar a produtividade e a ampliar as perspectivas de crescimento nacional no médio e longo prazos, segundo o relatório.

De acordo com o FMI, os juros futuros, inclusive sobre títulos da dívida pública de longo prazo, baixaram desde outubro em meio "ao otimismo com as perspectivas da reforma da Previdência com o novo governo".

Com a pausa do processo de elevação dos Fed Funds nos Estados Unidos e com a trégua comercial dos EUA com a China, as moedas de países emergentes, incluindo o real, se fortaleceram ante o dólar. O movimento ocorreu após as divisas terem sofrido fortes pressões de depreciação, com o nervosismo de investidores internacionais com países emergentes, como Argentina e Turquia, no ano passado.

Crescimento global

O FMI também diminuiu a projeção do crescimento global para este ano, de 3,5% previstos em janeiro para 3,3%, e não alterou a estimativa de alta de 3,6% em 2020. Em outubro, a expansão prevista era de 3,7% para este ano e para o próximo.

Segundo Gita Gopinath, economista-chefe do FMI, os países que apresentarão desaceleração neste ano respondem por 70% do PIB mundial. De acordo com o relatório, dois terços da redução de velocidade do crescimento advêm do menor vigor dos países avançados, com destaque para os Estados Unidos e a zona do euro, sobretudo Alemanha e Itália.

Nos EUA, foi marcante a diminuição da velocidade econômica por causa do esgotamento do impulso fiscal obtido com a reforma tributária de 2017. Na Europa, a produção industrial foi afetada em função da menor demanda interna e externa. O longo e turbulento processo de saída do Reino Unido da União Europeia também teve efeitos colaterais no crescimento do bloco.

As incertezas comerciais envolvendo os EUA e a China exerceram um grande papel na desaceleração. A disputa entre as duas maiores economias do mundo provocou estresse nos mercados internacionais e complicou as condições financeiras, inclusive com impactos expressivos para os países emergentes.

"As projeções de expansão global refletem uma combinação de perda de forças cíclicas e retorno de tépido potencial de crescimento em economias avançadas e uma precária recuperação em economias emergentes e em desenvolvimento", aponta o FMI no relatório.

O FMI reduziu a previsão de crescimento em 2019 das economias avançadas de 2,0% para 1,8%. Para 2020, a alta de 1,7% foi mantida.

Para os EUA, ocorreu uma diminuição da projeção de 2,5% para 2,3% neste ano. Para 2020, a previsão subiu de 1,8% para 1,9%. No caso da zona do euro, a queda foi de 1,6% para 1,3% em 2019 e de 1,7% para 1,5% no próximo ano.

De acordo com o FMI, os mercados emergentes registraram leve queda das previsões, de uma elevação de 4,5% para 4,4% em 2019 e de 4,9% para 4,8% para o ano que vem.

A China apresentou uma pequena melhora, de um incremento de 6,2% para 6,3% para neste ano, enquanto que a estimativa para o PIB do país para 2020 recuou de 6,2% para 6,1%. O FMI reduziu as previsões para a expansão do comércio mundial de mercadorias e serviços, em volume, de 4,0% para 3,4% em 2019 e de 4,0% para 3,9% no próximo ano.

Depois de 2020, o FMI aponta que o crescimento global deve ficar no patamar próximo de 3,6% no médio prazo, de forma semelhante ao que foi apontado pelo órgão multilateral em outubro.

 

Comércio no mundo

O FMI tem uma avaliação um pouco mais otimista do que as de outubro e janeiro sobre as perspectivas para a redução das tensões comerciais entre os EUA e a China. Nas atuais projeções macroeconômicas para o mundo, o órgão considera que as tarifas impostas pelo governo americano para US$ 200 bilhões em importados chineses permanecerão em 10%, e não serão elevadas a 25%, como era previsto a partir de março de 2019.

O FMI ressalta, contudo, que a previsão para o comércio global em 2019 mostra a continuidade dos efeitos negativos gerados pelo enfraquecimento da troca global de mercadorias e serviços em 2018, que foram afetados pelo contencioso entre EUA e China.

"Nos anos seguintes, o crescimento do comércio projeta a continuação do ritmo de 2018, com a retomada gradual de investimentos em mercados emergentes, compensando a redução do ritmo de gastos de capital em economias avançadas previsto a partir de 2020", diz o relatório.

Para o FMI, se as negociações entre EUA e China de fato evitarem a elevação de tarifas de 10% para 25%, a confiança na economia mundial poderá aumentar e impulsionar investimentos. Com isso, o crescimento global poderia superar as projeções para este ano e o próximo. Uma percepção positiva sobre um favorável acordo comercial entre Washington e Pequim já está refletida em preços de ativos nos mercados mundiais.

O FMI ressalta que há riscos que podem reduzir ainda mais o ritmo da expansão global, entre eles a piora das tensões comerciais, sobretudo entre os governos americano e chinês. Também pode ocorrer uma desaceleração adicional de países europeus, como a Itália, além de uma piora da demanda agregada do Reino Unido caso não ocorra um acordo para o Brexit.

Ao avaliar os mercados globais de commodities, o FMI destaca que os preços dos metais em geral subiram desde o final do ano passado, o que foi influenciado em parte pelo aumento da cotação do minério de ferro - provocado principalmente pela demanda chinesa e pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG).

O FMI também destacou que o preço do açúcar aumentou recentemente de forma expressiva, em parte com um cenário de menor produção no Brasil e na Índia em 2019.

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