FMI se fortalece com crise na Europa

FMI se fortalece com crise na Europa

Sentindo-se humilhados e com medo da ingerência dos EUA, europeus fecham acordo para eventual intervenção do FMI na zona do euro

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2010 | 00h00

Os tempos são outros para o Fundo Monetário Internacional (FMI). Primeiro, o Brasil, um devedor histórico, se tornou credor. Agora, Alemanha e França, que lideram a maior comunidade econômica do mundo e desde 1945 financiam o Fundo, admitem que poderão precisar da ajuda externa para debelar a crise financeira que começou na Grécia e ameaça se alastrar pela União Europeia.

Ao fim de um encontro dos líderes da União Europeia, na quinta-feira, o primeiro-ministro da Espanha, José Luis Zapatero, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso e o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, anunciaram, em coletiva de imprensa, a criação de uma rede de segurança financeira para a Europa, em parceria com o FMI.

Desde a sexta-feira, o FMI é reconhecido nas principais capitais do bloco como o grande fortalecido pela crise na Grécia. O tema foi alvo de reportagem de capa do jornal Le Monde, que lembrou ainda o "golpe de credibilidade" sofrido pelo euro, agora em parte dependente de intervenção externa. Mas, antes de repercutir na imprensa, o assunto já era debatido em Bruxelas, no Banco Central Europeu (BCE), no Palácio do Eliseu e até em seguimentos do governo alemão.

Nicolas Sarkozy, presidente da França e um dos artífices do compromisso com a Alemanha, não escondeu sua posição inicial. Segundo ele, os líderes políticos se dividiram em três grupos: os que desejavam a integração do FMI aos planos de socorro, os que o recusavam e os que buscavam mediar um acordo.

Ele preferia a "solução europeia". Mas, diante da posição irredutível da chanceler alemã, Angela Merkel, não lhe restou alternativa se não assegurar que a participação do fundo seja, em qualquer circunstância, minoritária.

Líderes nacionais não esconderam a decepção parcial com o novo status do FMI na Europa. Um dos que manifestaram sua inconformidade foi o presidente do Eurogrupo, o primeiro-ministro de Luxemburgo, Jean-Claude Juncker. "Estou muito satisfeito com a decisão", disse. "Embora preferisse uma solução estritamente europeia."

"A maior parte do financiamento caberá às 16 nações do euro. Isso também poderia ter ocorrido sem a participação do FMI", disse Juncker. Para ele, a crise grega demonstrou que falta à Europa uma instituição para debelar turbulências financeiras.

No BCE, o risco de intervenção do FMI gerou advertências. Jean-Claude Trichet, presidente da instituição e guardião da independência do euro, chegou a extrapolar o seu papel, na quinta-feira, classificando a inclusão do Fundo como "muito ruim", antes de ser obrigado a alterar o discurso, após o acordo.

Na Alemanha a inclusão do FMI dividia opiniões antes da votação. O ministro de Finanças, Wolfgang Schäuble, classificara a hipótese como "humilhante".

Consumado o acordo, o Fundo, dirigido pelo ex-ministro da Economia da França, Dominique Strauss-Kahn, afirmou, em Washington, estar pronto para atender, caso seja chamado pela Grécia. "Seguimos de perto a evolução da situação", afirmou um porta-voz do fundo. "E, como temos dito, o FMI está sempre disposto a estudar os pedidos de assistência financeira da parte de seus países membros."

Ingerência americana. Caso ocorra, não será a primeira vez que o Fundo emprestará dinheiro a um país da Europa. Em 1973, o Reino Unido já havia pedido socorro, assim como a Islândia, a Hungria, a Letônia e a Romênia, entre 2008 e 2009. Será a primeira vez, porém, que um dos países da zona do euro recorrerá ao FMI. Mais: em caso de intervenção, alertam críticos como Trichet, países como os EUA - maior doador do Fundo, com 17,46% das cotas - exercerão indiretamente ingerência na política econômica europeia.

Outro objeto de críticas é o fato de que a zona do euro não precisa de empréstimos para se manter solvente. "O recurso ao FMI não faz sentido, na medida em que não foi criado para intervir em um país rico em dificuldades menores", diz Jean-Paul Fitoussi, presidente do Centro de Pesquisas Econômicas (OFCE), de Paris. "Não se trata de saber se a Grécia é solvente sozinha. A Grécia faz parte da zona do euro, e ela é a região mais solvente do mundo, muito mais do que o Japão, os EUA e o Reino Unido."

PARA LEMBRAR

Grécia perdeu controle sobre déficit e dívida

A crise grega se arrasta desde o final do ano passado, quando o novo governo, socialista, revelou que o antigo governo havia omitido e/ou manipulado dados econômico-financeiros da verdadeira situação do país. O déficit orçamentário, que segundo o governo anterior seria de 6%, atinge na realidade 12,7%. O acordo que criou o euro não admite, em tese, déficit orçamentário superior a 3%.

Além disso, o endividamento do país atinge a cifra de 125% do PIB, quando os acordos do euro sinalizam que dívidas superiores a 60% do PIB já seriam preocupantes.

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