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FMI sugere que Brasil corte juros com cautela

Fundo eleva previsões de crescimento do PIB global, mas alerta para riscos ainda altos

ROLF KUNTZ, ENVIADO ESPECIAL / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2012 | 03h07

O Fundo Monetário Internacional (FMI) recomenda cuidado com o corte de juros no Brasil e a manutenção de políticas monetárias frouxas na Europa e nos Estados Unidos, o oposto das estratégias defendidas pelo governo brasileiro, nos dois casos.

Há menos espaço de manobra nos países - o Brasil é o exemplo citado - onde a expectativa de inflação está acima da meta, segundo o Panorama Econômico Mundial divulgado ontem. A redução de juros e os incentivos à demanda interna já produziram efeitos, e é preciso levar em conta, agora, os estímulos de uma economia global mais ativa, disse o chefe de divisão do Departamento de Pesquisa do FMI, Thomas Helbling,

A economia brasileira deve crescer 3% neste ano e 4,1% em 2013, pelas novas projeções, e aproxima-se do limite de crescimento potencial, acrescentou Helbling. As taxas agora estimadas para este ano e o próximo são 0,1 ponto porcentual superiores às projetadas em janeiro.

Ainda há espaço para maior redução de juros no Brasil, disse na semana passada o ministro da Fazenda, Guido Mantega. A presidente Dilma Rousseff tem continuado em campanha contra a grande emissão de moeda nos países desenvolvidos, por ela descrita como um tsunami monetário. Ela atribui a esse tsunami a valorização do real e a consequente redução de competitividade das empresas brasileiras.

Os riscos de superaquecimento da economia brasileira diminuíram, mas não parecem eliminados, segundo a avaliação do Fundo, em vista do crédito elevado e do crescimento das importações. Os riscos podem aumentar novamente se os ingressos de capital voltarem aos níveis anteriores às medidas de controle. Como outros exportadores de matérias-primas, especialmente do Cone Sul, o Brasil também pode ser afetado pela redução das cotações, se um agravamento da crise europeia afetar os mercados, especialmente o chinês.

O novo cenário mundial apresentado no relatório do FMI é melhor que o do começo do ano, mas, ainda assim, a maior parte das economias deve crescer menos que em 2011, sendo o Brasil uma das exceções. As novas projeções indicam 3,5% em 2012 e 4,1% em 2013 para a economia global. Os números estimados para os Estados Unidos são 2,1% e 2,4%, mas a previsão para a zona do euro ainda é de recessão neste ano e ligeira recuperação no próximo (ver tabela).

A economia global esteve nos últimos seis meses numa montanha-russa, segundo o economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard. A crise europeia tornou-se mais aguda no fim do ano passado e ameaçou o mundo com desastre parecido com a quebra do Lehman Brothers, mas os governos tomaram medidas fortes, novos gabinetes assumiram o poder na Espanha e na Itália e a União Europeia adotou um duro pacto fiscal, resumiu Blanchard.

Além disso, o BC Europeu injetou nos mercados uma liquidez "extremamente necessária". Ele usou as palavras "badly needed". O advérbio "badly", normalmente empregado para descrever situações muito graves, vale como uma defesa da política do BCE, apontada pela presidente Dilma Rousseff como uma das fontes do tsunami monetário. O cenário melhorou, e essa avaliação aparece nas novas projeções, mas os riscos permanecem e tudo pode piorar a qualquer momento, segundo Blanchard.

Os governos do mundo rico permanecem diante do desafio de conciliar o necessário ajuste das contas públicas com medidas de estímulo naqueles países onde haja algum espaço de manobra. A situação se complica por causa do comportamento "um tanto esquizofrênico" dos mercados, com forte cobrança de rápida consolidação fiscal e reação adversa quando o ajuste reduz o crescimento econômico.

No caso dos bancos, o problema é reduzir a exposição aos riscos sem apertar o crédito. Os governos terão mais liberdade para conciliar ajuste e estímulo à expansão se apresentarem programas fiscais de médio prazo com credibilidade, adotarem regras para conter o gasto público e realizarem um eficiente trabalho de comunicação com o mercado, dizem os técnicos do FMI.

Os bancos centrais podem continua atenuando os efeitos da arrumação fiscal com políticas monetárias folgadas. Não há mais espaço nos Estados Unidos para corte de juros, mas o Federal Reserve pode adotar políticas não convencionais de estímulo ao crédito. O BCE tem ainda algum espaço para redução da taxa e, além disso, deve manter suas "políticas não convencionais" para injetar dinheiro nos mercados. O risco de inflação na zona do euro continua baixo, segundo as projeções do Fundo.

Na zona do euro, o pacto fiscal adotado pelos vários governos cria condições para emissão de títulos públicos de responsabilidade comum, os eurobonds, mas o passo inicial poderia ser o lançamento de papéis de prazo mais curto (eurobills), com maturação inferior a um ano, segundo Blanchard. Não se pode criar o eurobond de um dia para outro, argumentou.

As economias emergentes e em desenvolvimento continuarão crescendo mais que as avançadas, mas em ritmo menor que no ano passado, de 6,2%. As projeções são de 5,7% para este ano e 6% para 2013. A China continuará liderando, com 8,2% em 2012 e 8,8% no próximo ano.

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