Tiago Queiroz/Estadão - 13/10/2015
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Celso Ming
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Fogo na Amazônia e o governo deixa queimar

Não há um plano integrado de desenvolvimento para a Amazônia e é muito pouco apenas aumentar o monitoramento, como quer Mourão

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2020 | 19h43

Não dá ainda para admitir que o governo Bolsonaro mudou sua postura diante do alastramento das queimadas na Amazônia.

O que há é o reconhecimento tardio e flácido do descontrole sobre o que se passa por lá. O vice-presidente da República, Hamilton Mourão, coordenador de um organismo inoperante chamado Conselho da Amazônia, reconhece que “nossos mecanismos de monitoramento são péssimos”, mas não diz como nem sob que condições nem com que objetivo é preciso passar do péssimo para algo aceitável.

Em todo caso, essa é uma postura diferente porque até agora o governo se limitava a repelir as denúncias internacionais que condenavam a destruição por não passarem, como vem afirmando o presidente Bolsonaro, de tentativas de atropelar a soberania nacional na região ou de justificar práticas de chantagem destinadas a solapar as exportações brasileiras de produtos agropecuários.

Pelo levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Amazônia teve 20% a mais de focos de queimada em junho deste ano em relação ao mesmo período de 2019 (veja o gráfico). A devastação beneficia grupos que se apropriam do patrimônio nacional e que quase nada acrescentam à renda dos brasileiros.

Depois de ter repelido o quanto pôde as denúncias dos especialistas brasileiros e das autoridades internacionais, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, agora afirma que é preciso “ouvir as críticas” que vêm do exterior, como se não as conhecesse ou como se entendesse que bastará fingir que as ouve para fazê-las cessar.

Até agora, a única política ativa do governo Bolsonaro para a Amazônia se limitou a mobilizar o corpo diplomático para responder às críticas que provêm de todos os quadrantes e, assim, reduzir o desgaste da imagem do País. O resto é deixar rolar e deixar queimar.

A destruição da Amazônia começou a prejudicar os investimentos estrangeiros no Brasil. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, e o próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, vêm advertindo que a omissão do governo não está apenas corroendo a imagem do País lá fora, mas também cancelando exportações e bloqueando projetos de desenvolvimento por aqui. Também por isso, a aprovação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia corre sério risco de não se confirmar. O presidente da França, Emmanuel Macron, acaba de manifestar sua oposição à assinatura do acordo.

O pleito do “desmate zero”, como está no manifesto dos ex-ministros da Economia e dos ex-presidentes do Banco Central, deve ser visto como a definição de um ponto de partida. Mas até mesmo para isso é preciso saber o que queremos e para onde queremos ir.

Nos últimos 50 anos, as políticas de governo para a Amazônia se limitaram a objetivos de defesa e de ocupação das áreas fronteiriças, como definidos pelo Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam) e pelo projeto da Calha Norte.

Planos de desenvolvimento da região foram insuficientes ou tiveram graves desvios de finalidade. A Sudam, o sistema de incentivos para investimentos, por exemplo, se transformou em foco de corrupção e em cemitério de iniciativas inviáveis. A Zona Franca de Manaus, que hoje oferece pouco mais de 60 mil empregos diretos e indiretos, carrega o vício original de dar prioridade a investimentos em indústrias, muitas delas artificiais, e de desdenhar de polos mais promissores de desenvolvimento, como o turismo e o aproveitamento racional e sustentável de minérios e demais recursos naturais. Hoje, Manaus é uma cidade em degradação acelerada, como vem denunciando com dor no coração um dos seus mais lúcidos filhos, o escritor Milton Hatoum.

Não há um plano integrado de desenvolvimento para a Amazônia. E, sem saber o que fazer, é muito pouco apenas aumentar o monitoramento, como quer o general Mourão.

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