Divulgação
Divulgação

Foguetes reutilizáveis

A Blue Origin, de Jeff Bezos, faz o turismo espacial ficar um pouco mais perto de se tornar realidade

The Economist

02 de dezembro de 2015 | 08h00

Às vezes, ganha quem come pelas beiradas. No dia 23 deste mês, a discreta Blue Origin, uma empresa do setor aeroespacial que pertence ao fundador da Amazon, Jeff Bezos, anunciou ter realizado verdadeira façanha. Além de sua cápsula espacial New Shepard ter retornado com segurança à Terra, após breve passeio pelo espaço, o foguete propulsor BE-3 da companhia, que transportou a cápsula para fora da atmosfera terrestre, fez o mesmo. Depois de se desprender da New Shepard, o BE-3, com os motores desligados, voltou para a Terra em queda livre. Quando estava a cerca de 1,5 quilômetro do solo, os motores do foguete foram acionados novamente, desacelerando a velocidade de descida e permitindo uma aterrissagem suave e controlada. Como diz o triunfal press release da Blue Origin: “Estacionado em nossa base de lançamento, no Texas, temos agora a mais rara das máquinas espaciais: um foguete usado”.

Atualmente, os foguetes espaciais são veículos descartáveis. Depois de pôr sua carga na velocidade e altitude exigidas, eles voltam para a Terra – com frequência se espatifando ao reentrar na atmosfera. Esse é um dos fatores que torna as viagens espaciais caras. É como se, ao final de cada trajeto percorrido, um motorista explodisse seu carro e tivesse de comprar um novo. Há décadas os cientistas tentam desenvolver foguetes reutilizáveis. Os ônibus espaciais foram o mais perto que conseguiram chegar. No entanto, mesmo esses aposentados veículos orbitais, além de serem muito mais caros do que os foguetes comuns, só eram parcialmente reutilizáveis – seu gigantesco tanque de combustível externo era descartado após cada lançamento.

O foguete da Blue Origin, portanto, é um feito tecnológico. Diferentemente dos propulsores a base de combustível sólido dos ônibus espaciais, que usavam paraquedas para amortecer a queda no oceano (onde tinham de ser recolhidos por embarcações da Marinha americana), o BE-3 aterrissa sozinho, como os foguetes de ficção científica, acionando seus motores e usando os gases de escape para se equilibrar até tocar o solo.

O voo do foguete da Blue Origin é, igualmente, um triunfo publicitário. A SpaceX, uma concorrente mais antiga (e menos avessa às câmeras), fundada por Elon Musk, outro bilionário da internet, também vem trabalhando em projetos de foguetes reutilizáveis. As versões mais recentes de seus propulsores Falcon são projetadas para pousar em balsas não tripuladas. A empresa chegou perto de conseguir aterrissagens bem-sucedidas, mas até o momento todos esforços malograram; a tentativa mais recente, em abril, terminou numa bola de fogo. Agora a companhia de Bezo pôs a de Musk no chinelo.

A comparação não é totalmente justa. O foco da Blue Origin, ao menos por ora, é o turismo espacial. A ideia é transportar pequenos grupos de passageiros em excursões pagas pela beira do espaço, e não colocar artefatos efetivamente em órbita, como fazem os foguetes da SpaceX. O voo da New Shepard foi apenas tecnicamente espacial. A cápsula chegou à altitude de 100,5 quilômetros acima do nível do mar, isto é, 500 metros somente além da linha de Karman, limite arbitrário que demarca o começo do espaço.

A concorrente da Blue Origin nesse mercado não é a SpaceX, e sim a Virgin Galactic, outra empresa de turismo orbital, que sofreu grave revés no ano passado, quando uma de suas espaçonaves explodiu durante um voo teste, matando um de seus dois pilotos. A SpaceX, por sua vez, já põe seus veículos efetivamente no espaço, e faz isso em troca de moeda sonante. Seus foguetes levam suprimentos para a Estação Espacial Internacional e colocam satélites em órbita. Nada disso desmerece o feito da Blue Origin. Pelos cálculos de Musk, os foguetes reutilizáveis podem reduzir em dez vezes ou mais os custos dos lançamentos espaciais. Pôr um foguete no ar é tarefa sabidamente difícil. Trazê-lo de volta para a Terra é ainda mais complicado. Mas a Blue Origin fez com que isso parecesse fácil.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

Mais conteúdo sobre:
theeconomistJeff Bezos

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.