'Foi a contabilidade criativa que nos trouxe até este ponto', diz Mendonça de Barros

José Roberto Mendonça de Barros até esperava o rebaixamento, mas não acreditava que ele fosse ocorrer tão rápido

Aleza Salomão, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2014 | 02h07

Na avaliação do economista José Roberto Mendonça de Barros, diretor da consultoria MB Associados, a Standard & Poor's emitiu todos os sinais de que poderia rebaixar a nota do Brasil. O que faltou foi habilidade para lidar com a questão. "O governo demorou a mostrar que se importava de fato com um eventual rebaixamento", diz ele na entrevista que concedeu ao Estado.

Como o sr. viu o rebaixamento?

Foi mais rápido do que eu poderia imaginar, afinal a Standard & Poor's esteve aqui na semana passada. Mas não fiquei surpreso. Se olharmos as agências de classificação de risco, podemos identificar, consistentemente, três comportamentos. A Fitch se manifesta muito satisfeita com o Brasil. No relatório que soltou na primeira semana de janeiro, se disse tranquila em relação ao País. A Moody's está no meio do caminho. Não deu sinais de que vai mudar o rating, mas está acompanhando. A Standard & Poor's, já faz tempo, falou que o rebaixamento era uma possibilidade. O governo demorou a mostrar que se importa de fato com um eventual rebaixamento.

E as razões alegadas?

As razões são aquelas que a gente vinha levantando. A dívida está relativamente alta e o resultado fiscal, fraco. E depois, o País cresce pouco mesmo. Eles (Standard & Poor's) estão projetando crescimento de 1,8% para este ano. Nós projetamos 1,6% e o Focus desta segunda trouxe 1,7% para este ano e 2% em 2015. Está mais ou menos em linha. O governo projeta 2,5% - é um pouco acima, mas é baixo. Eu mesmo venho insistindo que estamos presos numa armadilha de baixo crescimento. Os investimentos também estão relativamente baixos. Se olharmos a evolução do indicador de ambiente de negócio da FGV vamos ver que está em franca deterioração.

O que podemos esperar nas próximas semanas.

Como cada uma das três agências tem uma opinião diferente, alguns podem argumentar: mas foi só uma. Mas do ponto de vista do mercado internacional vai fazer alguma diferença. Devemos ter um ajuste nesta terça no mercado financeiro. Devem reafirmar as tendências que já estávamos vendo. Há uma boa possibilidade de a Petrobrás ter o seu rating revisado também. O resultado da companhia do ponto de vista financeiro é tudo, menos brilhante.

O que é preciso fazer para o País fique numa posição mais confortável daqui para frente?

Se tivesse que destacar o que nos trouxe até aqui eu diria que foi a contabilidade criativa dos três últimos anos - e quer queira, quer não, ela continua em operação. Veja o recente pacote do setor elétrico. Vão tomar um empréstimo de R$ 8 bilhões por meio da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, que não é uma empresa. O negócio da câmara é fazer a compensação do setor de energia. Como vão levantar esse dinheiro sem o aval do Tesouro? Esses R$ 8 bilhões representam um esforço de contabilidade criativa. Não adianta insistir nessas mágicas. Elas são contraproducentes.

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