LOUIS LANZANO/AP
LOUIS LANZANO/AP

‘Foi como se a lei da gravidade houvesse sido revogada'

'Ficamos realmente melhores ou apenas achamos que ficamos?'

Megan McArdle, The Washignton Post

15 Setembro 2018 | 05h00

Num dia de primavera de 2006, eu estava sentada em um café de Nova York com um banqueiro especializado em derivativos de crédito. Ele me explicava por que o custo do crédito despencara. Tudo se resumia a “técnicas mais eficazes de análise de dados”. Ficamos tão mais eficientes em prever riscos de moratória ou oscilação de taxas de juros (dizia ele) que os banqueiros puderam reduzir drasticamente o preço dos empréstimos e ainda ganhar dinheiro.

“Ficamos realmente melhores ou apenas achamos que ficamos?”, perguntei. Ele me deu aquele sorriso complacente que gênios da matemática dão a estudantes novatos e confirmou: “Ficamos realmente melhores”. Dois anos depois o Lehman Brothers pedia concordata. No desastre que se seguiu meu banqueiro, como muitos outros, tornou-se um ex-banqueiro.

Andei pensando muito nele e naquela conversa agora que chegamos ao décimo aniversário do colapso do Lehman. O mundo então parecia simples e alegre naquele café ensolarado, e as pessoas pareciam sábias e brilhantes, especialmente para elas mesmas.

Lembrei-me também daqueles que, nos anos 2000, diziam que precisavam comprar uma casa antes que os preços em alta os condenassem a ser eternos inquilinos. E dos que se vangloriavam de quanto dinheiro haviam ganho comprando e vendendo casas. E ainda das longas e acesas discussões que tive com economistas sobre um fenômeno que vinha sendo chamado de “Grande Moderação”.

Cunhado por James Stock e Mark Watsonin em 2002, a expressão ficou famosa por um discurso de 2004 de Ben Bernanke, então membro da diretoria do Federal Reserve, o banco central americano. Por ela, entendia-se um firme declínio em décadas de volatilidade macroeconômica; em termos leigos, significava que os ciclos econômicos não mais se sucediam tão freneticamente.  

Isso era bom? Indicava mudanças estruturais na economia? Mais competência administrativa? Você naturalmente não ficará surpreso ao saber que a maioria dos políticos e executivos que entrevistei atribuiu essa tendência em grande parte (embora modestamente) a seu próprio tirocínio.

Aí veio o Lehman. Logo em seguida à quebra, entrevistei um famoso economista sobre a crise que se seguiu. “Fico pensando”, disse ele,”no que aconteceu com os inúmeros ‘sábios’ que escreveram teses e mais teses sobre a Grande Moderação.”

Suspeita-se que eles, como muitos de nós, estejam revendo suas crenças mais fervorosas. Para muitos economistas, a crise financeira de 2008 foi algo como a súbita revogação da lei da gravidade: as coisas pareciam ter começado a flutuar e ninguém se arriscava a prever quando voltariam à terra. “Se você ainda não mudou de ideia sobre muitas coisas é porque não pensou o bastante”, me disse um economista libertário.  

Eu me julgava bastante presciente – havia, por exemplo, expressado por escrito minhas primeiras preocupações com  uma bolha imobiliária em 2002 e realmente perguntei àquele banqueiro do café de Nova York se nossa avaliação de riscos era mesmo tão boa quanto achávamos. É claro que não tinha ideia, assim como ele, de que caminhávamos para o precipício. E continuei cega mesmo ao chegar à beira do abismo.  

Seis meses antes do Lehman, quando o Bear Stearns estava nos estertores, fiquei chocada com a possibilidade de um socorro financeiro por parte do governo. Governos não devem interferir no mercado! O capitalismo exige uma destruição criativa! Então o governo deixou o Lehman quebrar, e o mercado financeiro foi na esteira. Olhando para o abismo, descobri que havia uma insuspeitada ânsia por intervenção governamental em grandes quebradeiras de mercado.

Mesmo agora, passados dez anos, fico surpresa ao ver quão pouco, no fundo, minhas ideias mudaram. Continuo basicamente libertária, embora um pouco mais disposta a tolerar intervenção em casos extremos. Nisso, acredito ser mais ou menos típica. Se você se inclinava para a esquerda em 14 de setembro de 2008, nos meses seguintes culpou a ganância dos banqueiros e a desregulamentação descontrolada. Já seus opositores de longa data denunciaram com igual fervor os perversos incentivos criados pelas várias políticas governistas.

Uma retrospectiva de longo prazo também não nos dá substancialmente uma perspectiva diferente. A maioria de nós continua próxima de nosso velho território e se mantém bastante segura do que seja uma boa administração financeira. E continua certa de que todos os outros estão iludidos por uma combinação de ignorância, interesse próprio e preconceito ideológico.

É por isso, acho eu, que continuo incomodada com aquela conversa sobre os dias serem mais tranquilos antes da queda do Lehman. Todos, então, também tínhamos certeza de tudo. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ  

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