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Foi difícil cair a ficha

Contração econômica que vem pela frente será gigantesca e exige medidas compensatórias mais ousadas

Claudio Adilson Gonçalez, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2020 | 05h00

Os economistas gostam de se autorrotular ou de atribuir rótulos a seus colegas. Alguns se dizem de esquerda, keynesianos, novos keynesianos, desenvolvimentistas, neoclássicos, liberais e, mais recentemente, ultraliberais. Essas classificações refletem ideologias, não pensamento analítico e de natureza científica. Ou, na visão de Yuval Noah Harari, autor de Sapiens – Uma Breve História da Humanidade, é mais apropriado chamá-las de religiões.

A bem da simplificação e já que ideologia está na moda, vou cometer essa mesma impropriedade e dividir os economistas em de esquerda, de centro e de direita.

Os de esquerda estão corretos no diagnóstico de que a economia capitalista não conseguiu resolver os problemas da desigualdade e da pobreza, mas se perdem completamente ao apresentarem propostas para solucionar essas questões.

No centro, encontramos os profissionais mais flexíveis. Defendem o livre mercado, mas reconhecem suas imperfeições. Acreditam na necessidade de os governos agirem firme na regulação, na defesa da concorrência e em políticas públicas ativas para combater a pobreza e as desigualdades. Compreendem que o investimento privado jamais substituirá totalmente o público. Reconhecem que os ciclos econômicos são inerentes às economias de mercado e que tanto a política monetária quanto a fiscal devem suavizar essas flutuações.

Na direita estão os ultraliberais. Estes ainda acreditam plenamente nas expectativas racionais, na economia preponderantemente formada por mercados de competição perfeita e na ingênua visão de que o setor privado pode cuidar de tudo, ou de quase tudo. Aumentar gasto público é sempre ruim, pouco importando se a economia opera ou não abaixo do seu nível potencial. Continuam dogmáticos seguidores do pensamento econômico da Universidade de Chicago dos anos 60 e 70 do século passado. Se é para dar rótulos, eu prefiro chamá-los de neoclássicos desatualizados. Infelizmente, essa visão predomina na equipe econômica de Bolsonaro, com honrosas exceções.

É essa postura ideológica, quase religiosa, que explica e lentidão para cair a ficha do governo sobre a gravidade da crise econômica que o País vai enfrentar em decorrência da necessidade de isolamento social para evitar a proliferação incontrolável do surto da covid-19.

Até o final da semana retrasada, na contramão do que acontecia no resto do mundo, o presidente zombava da epidemia e Paulo Guedes dizia que a melhor resposta para o problema era o Congresso aprovar rapidamente as reformas estruturais, e as principais, tributária e administrativa, nem sequer haviam sido encaminhadas ao Legislativo. Somente no final da segunda-feira dia 16/3, depois de muita cobrança, o ministro apresentou o esboço de um plano de R$ 147,3 bilhões para atenuar os efeitos econômicos do surto e para financiar ações voltadas ao seu combate.

As medidas, embora na direção correta, soavam fracas. Não havia nada para o setor informal e não se cogitava qualquer expansão fiscal contracíclica. O pacote centrava-se mais em antecipações, como do 13.º salário para os aposentados (só no final de maio), promessa de reforço do Bolsa Família, liberações do PIS-Pasep, deferimento para o pagamento de tributos e recursos adicionais (insuficientes) para a saúde.

Mais cobranças, e as medidas foram sendo paridas a fórceps. Surgiram alguns recursos para os informais e, com a aprovação do estado de calamidade pública, deixou de ser obrigatório o cumprimento da meta fiscal. Fala-se que o déficit primário poderá chegar a R$ 300 bilhões, mas não se sabe ao certo se, quando e para onde esses recursos adicionais serão liberados. Não se trata de abandonar o ajuste fiscal de longo prazo, o que seria um equívoco, mas apenas de reconhecer que a contração econômica que vem pela frente será gigantesca e exige medidas compensatórias muito mais ousadas.

ECONOMISTA E DIRETOR-PRESIDENTE DA MCM CONSULTORES. FOI CONSULTOR DO BANCO MUNDIAL, SUBSECRETÁRIO DO TESOURO NACIONAL E CHEFE DA ASSESSORIA ECONÔMICA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA

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