'Foi uma onda, mas o tsunami está vindo'

"O pior ainda está por vir." O alerta é de um dos líderes do movimento de resistência aos despejos na Espanha, Luis Carmacho, que também está ameaçado de perder a casa. Carmacho era um pequeno empresário e, com a crise, foi obrigado a demitir seus 11 funcionários. O banco confiscou todos os ativos de sua empresa e, ainda com dívidas, agora é sua casa que será tomada. Para ele, porém, o que mais preocupa é que a crise que começou na Espanha ainda vai se agravar.

O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2013 | 02h08

"A crise que está chegando é ainda maior. O que vimos por enquanto foi apenas uma onda, mas o tsunami está chegando." Segundo ele, milhares de famílias estão prestes a falir, gerando consequências sociais ainda maiores. "Os dados que estamos recebendo apontam que a Espanha viverá uma situação vulcânica, e quem diz que no próximo ano a coisa vai melhorar é um grande cínico", diz, pessimista.

"Sei que, com 56 anos, não vou mais ter um trabalho na minha vida. Mas minha maior preocupação é com a geração dos meus filhos. Nenhum dos dois tem trabalho, por mais que tenham estudado", disse. "Vou dormir pensando: será que um dia verei meus filhos trabalhar?", questiona. "Isso é o que me queima o sangue." Para ele, não está descartado nem mesmo que a prolongação da crise se transforme em violência social. "Cuidado que, por enquanto, as pessoas só levantam a voz."

Para ele, o maior culpado pela situação são os bancos, que teriam convencido famílias com ingressos modestos a entrar "na aventura da hipoteca". "Deixaram famílias sem patrimônio. Portanto, quando alguém me diz que no ano que vem será melhor, é um cínico que não tem coragem de vir aqui e ver a depressão das pessoas."

Carmacho não consegue segurar as lágrimas quando se lembra de que, ao demitir 11 pessoas obrigou algumas delas a abandonar a Espanha sem dinheiro e com até quatro filhos. "No dia que os despedi, chorei amargamente."

Outro que não se conforma com a situação é o argentino Jorge Contini, que já perdeu sua casa. Vivendo na Espanha desde 1989, ele chegou a ter o próprio negócio e prosperou. Aos 54 anos em 2010, porém, seus projetos foram arrasados pela crise. "Hoje, não tenho nenhuma renda." Contini fez parte da primeira leva de pessoas desalojados, ainda em 2011. "Essa é a argentinização da Espanha", disse.

Para a espanhola Mariló Ramos, o que mais vai marcar é o "custo moral e social" dos despejos. "O prédio onde eu morava lotou de policiais", lembra. "Parece que você é um delinquente. Sou apenas uma enfermeira."

"Durante meses encaixotei minhas coisas e não sabia o que dizer a meu filho." Ao comprar a casa, Mariló pegou um empréstimo de 140 mil. Depois de pagar durante oito anos e perder a casa no início do ano, ainda deve mais de 100 mil ao banco.

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