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Fora do compasso

Brasil tenta romper estagnação da economia enquanto mundo reduz o ritmo

Cida Damasco*, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2019 | 05h00

Tudo que se dizia, até pouco tempo atrás, era que as razões da estagnação da economia brasileira estavam integralmente dentro de casa. Portanto, romper esse processo e pôr a economia para andar dependia exclusivamente da correção dos desajustes internos, a começar dos desequilíbrios das contas públicas. A economia internacional vinha funcionando para atenuar ou contrabalançar as dificuldades domésticas. Pois bem, a maré virou. Não que os obstáculos internos tenham sido derrubados. Mas, para complicar, eles se associam agora aos riscos de piora do quadro externo. 

As projeções para o desempenho da economia mundial jogam para baixo tanto o crescimento de 2019 como o de 2020. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a expansão neste ano ficará em 2,9% e, no ano que vem, em 3%, em confronto com 3,2% e 3,4% das estimativas anteriores. Abaixo das taxas registradas desde a crise do subprime de 2008. Para o Brasil, os números esperados são ainda mais modestos, respectivamente 0,8% e 1,7% – a taxa para o ano que vem é inferior inclusive à esperada tanto pelos mercados como pelo governo, de 2%.

A guerra comercial entre Estados Unidos e China, com batalhas e tréguas seguidas, a interminável disputa do Brexit e os altos níveis de endividamento do setor privado estão na raiz dessa paradeira geral. Não há reação sequer à política monetária de “juros no chão” dos grandes bancos centrais e à política fiscal expansionista adotada por alguns países. 

Mais preocupante ainda é o fato de que essa nova rodada de previsões da OCDE não leva em conta as tensões criadas pelo recente ataque às refinarias de petróleo da Arábia Saudita – que estão elevando a temperatura da crise entre Estados Unidos e Irã, suspeito de comandar esse ataque. As cotações do petróleo abriram a semana passada com uma alta de quase 20%, a maior desde a Guerra do Golfo, em 1991, reeditando o perigo de um choque e, depois de idas e vindas, terminaram a sexta-feira mais comportadas: mesmo assim, no tipo Brent, a alta na semana ficou em 6,7% e, no WTI, em 5,9%. 

No Brasil, analistas e investidores se arrepiaram com a possibilidade de que pressões de alta nos combustíveis pusessem de novo à prova a autonomia da Petrobrás em relação ao Planalto ou, no extremo, provocassem a repetição de episódios como a da parada dos caminhoneiros. Por enquanto, pelo menos, riscos afastados. 

É fato que um país com reservas de US$ 385 bilhões está mais preparado para enfrentar abalos nos mercados internacionais e impedir que valorização do dólar se transforme numa correia de transmissão da crise para o Brasil, via inflação – até porque a fraqueza da atividade econômica barra essa transmissão. A grande questão, porém, é que a economia brasileira tenta acelerar o ritmo justamente num momento em que a economia mundial está mais lenta. É como se um motorista engatasse a marcha acelerada no meio de um congestionamento. Não conseguirá ir muito longe. 

A contribuição das commodities para a balança comercial, por exemplo, corre o risco de encolher, com preços refletindo a queda da demanda internacional. E, no meio de tudo isso, o governo brasileiro não tem feito nada para se apresentar como um integrante confiável da comunidade internacional. O estresse de Bolsonaro com líderes europeus por causa da Amazônia pode até ter se reduzido, mas deixou marcas profundas. Prova é que a Áustria recusou-se a aprovar o acordo comercial entre União Europeia e Mercosul e 230 fundos financeiros que administram US$ 16 trilhões divulgaram um comunicado em que pedem proteção à Amazônia. 

Exatamente por isso justifica-se a ansiedade em relação ao discurso de Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral da ONU, que ocorre amanhã. A fala de Bolsonaro pode reforçar a tendência isolacionista do governo ou, o contrário, dar sinais de que a intenção é estabelecer parcerias diversificadas, num momento em que a vida parece cada vez mais difícil para todos. Não estamos falando, aqui, da iminência de um colapso internacional. Mas de uma economia mundial cercada de incertezas. O que, decididamente, não colabora com planos do Brasil de romper a estagnação.

* É JORNALISTA

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