Ford de São Bernardo renasce com o início da produção do novo Ka

Fábrica que quase fechou as portas nos anos 90 agora tem a missão de levar a marca a encostar nas líderes de mercado

Cleide Silva, O Estadao de S.Paulo

14 de dezembro de 2007 | 00h00

Às vésperas do Natal de 1998, a Ford demitiu, por carta, 2,8 mil funcionários, quase metade da mão-de-obra em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. A medida deflagrou uma longa greve, a dos "golas-vermelha", envolvendo o pessoal da produção. Às vésperas do Natal deste ano, todos os empregados - agora apenas 2,1 mil - foram convocados para evento inédito que ocorre hoje: o lançamento, na própria fábrica, do novo Ka, modelo com a qual a marca espera se aproximar das três maiores montadoras brasileiras.Nos nove anos que se passaram entre um Natal e outro, a Ford, quarta maior empresa do setor, saiu de uma crise que quase fechou a fábrica do ABC para se tornar a montadora mais rentável do País. O grupo registra 15 trimestres de lucro na América do Sul, região em que o Brasil é líder de mercado.O resultado foi puxado principalmente pelo sucesso de vendas dos modelos Fiesta e EcoSport, feitos na fábrica da Bahia, inaugurada em 2001. Mas a unidade de São Bernardo, em operação há 40 anos, teve papel importante nessa virada, embora só agora tenha sido preparada para produzir um carro de grande volume - que será o mais barato da marca, a partir de R$ 25 mil, segundo lojistas.A Ford decidiu fazer o lançamento do Ka na própria fábrica, contrariando estratégias adotadas por ela mesma e por concorrentes de apresentar veículos à imprensa em locais turísticos, como Costa do Sauípe (BA), Camboriú (SC) e Manaus (AM)."Quem vai mostrar o carro são os representantes dos trabalhadores", diz Rogelio Golfarb, diretor de assuntos corporativos da Ford. Entre os convidados está o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que comandou diversas greves na unidade quando era sindicalista.O novo Ka, totalmente diferente do atual, disputará mercado com Chevrolet Celta, Fiat Palio, Volkswagen Gol e Renault Clio, chamados carros de entrada (ou populares). Do momento em que a Ford prometeu aos trabalhadores estudar um novo produto para o ABC - como parte de acordo para salvar a fábrica e evitar greves - até hoje, passaram-se mais de seis anos.NEGOCIAÇÃOEm março de 2001, o então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho, atual ministro da Previdência e também convidado da festa de hoje, reuniu-se com diretores da Ford nos EUA, num processo de negociação deflagrado na greve de 1999. Voltou com a promessa do novo carro, além de cinco anos de estabilidade para os funcionários. Em contrapartida, aceitou amplo programa de reestruturação, com corte gradual de pessoal e enxugamento da estrutura.Nos anos seguintes, foram centenas de reuniões para chegar a um produto considerado viável pela matriz. "Foram momentos de angústia, pois o carro demorava a ser aprovado. Mas, por fim, foi um processo de êxito", diz o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, José Lopes Feijóo.O novo Ka foi desenvolvido no Brasil, numa parceria entre montadora, fornecedores de peças e trabalhadores, que participaram de processo de criação, incluindo estratégias para corte do custo de produção.Embora distante do índice de produtividade da fábrica na Bahia, a mais moderna do grupo no mundo, a unidade de São Bernardo é competitiva, afirma o presidente da Ford do Brasil, Marcos de Oliveira. "Foram feitas melhorias no sistema de produção, investimentos na estamparia e a linha conta hoje com 170 robôs", informa. Parte do investimento no projeto, R$ 300 milhões, veio em forma de devolução, pelo governo do Estado, de crédito do ICMS retido da exportação.A fábrica do ABC produzirá este ano 54 mil unidades do antigo Ka (que sai de linha) e da picape Courier, praticamente metade de sua capacidade de 100 mil unidades em um turno. Com o novo Ka, o objetivo é operar nesse nível no curto prazo. A filial baiana produz 250 mil carros/ano em três turnos e opera com 17 fornecedores dentro da linha de montagem. No ABC, a fábrica recebeu três autopeças (Siemens, Thyssen e Pelzer), mas do lado de fora da linha, em galpões desativados pela Ford.O novo Ka é maior que o atual, leva três passageiros no banco traseiro, tem porta-malas maior e motores 1.0 e 1.6 flex. "O desenho, o estilo e a engenharia foram 100% feitos no Brasil", diz Oliveira.Embora não confirme, a Ford pretende, com o compacto, ficar mais próxima da Fiat, Volkswagen e GM, todas com participação nas vendas na casa dos 20%. A Ford tem 12%. Nos anos 90, com a crise, chegou a ter 6%. "Nossa estratégia é de crescimento rentável e sustentável", desconversa Oliveira. LINHA DO TEMPO1967 A Ford, que estava no Brasil desde 1919, compra as instalações da Willys e mantém com sua marca a produção do Jeep, da picape F-75 e da Rural1969 Lançamento do primeiro modelo realmente Ford, a perua Belina1979 Lançamento do primeiro automóvel da marca a álcool, o Corcel, e da picape F-1000 a diesel1990Em greve por salários,funcionários depredam carros e escritórios. A paralisação durou mais de 50 dias e teve apoio do então deputado federal Lula1987 Ford une-se à Volkswagen na empresa batizada de Autolatina1996 Fim da Autolatina. Fábrica recebe investimentos de US$ 2,5 bilhões para modernização e lança oFiesta1997 Lançamento do Ka e da perua Escort1998 A empresa anuncia 2,8 mil demissões em dezembro, quase metade de sua mão-de-obra, quando os trabalhadores entravam em férias coletivas1999 Em janeiro, funcionários voltam das férias e iniciam movimento contra os cortes, ocupando afábrica. Após várias semanas, a empresa negocia um plano de desligamento dosexcedentes2001 Unidade de caminhões é transferida do bairro do Ipiranga para o ABC e matriz promete um novo carro para São Bernardo2007 Grupo anuncia investimentos de R$ 2,2 bilhões no País e lança o novo Ka

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