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‘Formação técnica é diferencial na crise’

Segundo Lucchesi, quem tem educação profissional corre menos risco de ser demitido pelas empresas

Entrevista com

Rafael Lucchesi, diretor de Educação e Tecnologia da CNI

Marcelo Rehder- ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

04 Setembro 2015 | 03h00

A valorização do diploma universitário em detrimento do ensino técnico é coisa da época do milagre econômico, no fim dos anos 1960 e início dos 1970, afirma Rafael Lucchesi, diretor-geral do Serviço Nacional de Aprendizagem industrial (Senai). Hoje, segundo ele, a realidade é outra e 90% dos brasileiros acreditam que a educação profissional faz a diferença na carreira das pessoas.

O brasileiro valoriza a cultura de que é o diploma universitário que garante emprego?

É por aí. Mas, veja só, a CNI (Confederação Nacional da Indústria) tem pesquisas, feitas em parceira com o Ibope, mostrando que 90% dos brasileiros acreditam que a educação profissional vai dar um diferencial na carreira das pessoas. E 82% acreditam que vai trazer um benefício salarial. Outras pesquisas da FGV e da PUC do Rio demonstram que, entre dois indivíduos com a mesma escolaridade – vamos supor que eles concluíram o terceiro ano do ensino médio –, aquele que tem um ano de educação profissional vai ter 15% mais de renda. Se essa educação profissional for do Senai, serão 24% mais de renda. No entanto, uma parcela da sociedade brasileira ainda tem uma perspectiva de que a mobilidade social está com o canudo universitário. 

De onde vem essa valorização do diploma?

Essa é uma ideologia firmada na época do milagre econômico, quando havia arrocho salarial na base e salários diferenciados para a formação universitária. Hoje, a realidade é outra. A nova classe média tem uma percepção mais abrangente disso. A bem da verdade, a educação profissional tem se ampliado em todos os segmentos sociais e de faixa etária, porém de forma mais predominante na nova classe média e entre jovens. Agora, é claro que culturalmente a sociedade brasileira tem uma valorização excessiva da lógica bacharelesca. Ela vai achar que é o canudo universitário que vai lhe assegurar a inserção econômica,

Até pouco tempo atrás, o Brasil não vivia sob a ameaça de um apagão de mão de obra qualificada?

Um país como o Brasil, que historicamente forma poucos engenheiros e poucos técnicos no contingente geral da população, quando a economia cresce de forma mais acelerada e contínua enfrenta maior dificuldade de preencher as posições. Contudo, entre 2011 e 2014, por exemplo, o Senai dobrou o número de matrículas. A oferta saltou de 2 milhões para 4 milhões de matrículas/ano, um número incrivelmente alto. É claro que quando se fala de necessidades de um país esses números podem ser relativizados ao volume de estudantes que nós temos na matriz educacional brasileira. Mas é normal em períodos de forte crescimento ocorrerem dificuldades para encontrar as pessoas certas. Hoje em dia, o quadro mudou, nós vivemos uma situação de desaceleração econômica com taxa de desemprego em alta. Seguramente, ter formação técnica é um diferencial para se manter ativo no mercado de trabalho. É também o caminho mais rápido para conseguir o primeiro emprego. Quem tem formação técnica e está no mercado corre muito menos risco de ser desligado. Quando a empresa precisa desligar funcionários, ela toma uma decisão racional, escolhe aqueles trabalhadores menos produtivos, menos capacitados, para serem demitidos. Visto de outro lado, a empresa mantém trabalhadores mais produtivos e mais capacitados. Para quem foi desligado, o melhor caminho é a requalificação por meio da formação técnica.

Nesse cenário, o corte de vagas do Pronatec não assume um caráter mais dramático, na medida em que a demanda por qualificação costuma crescer em épocas de vacas magras?

O Pronatec não é a única fonte de vagas para jovens em cursos técnicos de nível médio. Existem as redes estaduais, a rede de institutos federais de educação, o Sistema S, que é um bom parceiro do Pronatec, e têm um número grande matrículas para além do Pronatec. Ou seja, existem outros caminhos para esses jovens. É claro que o desejável seria que o Pronatec mantivesse o seu volume de matrículas/ano, mas temos uma contingência de natureza macroeconômica que é a necessidade de fazer o ajuste fiscal.

Pela dispersão geográfica, o profissional qualificado não poderia estar em lugar diferente de onde há demanda nos momentos de forte crescimento econômico, quando as empresas sofrem para preencher vagas? 

Pode acontecer isso. Mas, antes da expansão das vagas no Senai, nós fizemos um estudo do emprego industrial no Brasil. Mapeamos todas as microrregiões econômicas com mais de 5 mil empregos, o que dá um trabalho bastante abrangente. Temos hoje mais de mil unidades educacionais com alunos matriculados em 2.700 municípios brasileiros. O País tem 5.570 municípios e a metade deles tem alunos matriculados no Senai, o que não é trivial. Estamos presentes em todas as atividades de largada de todos os empreendimentos industriais brasileiros. Quando o investimento de um empreendimento industrial chega ao fim, normalmente aparece um representante da empresa e o governante. O Senai não aparece na foto, mas é quem viabiliza o treinamento e a capacitação da força de trabalho que dá partida naquela planta industrial.

As informações do mapa do emprego vão além da vocação regional?

Sim. Não adianta formar o soldador em Porto Alegre se o estaleiro vai se instalar em Pernambuco. É preciso fazer a capacitação do soldador na própria região por causa da sua baixa mobilidade, porque os salários não são tão altos e normalmente a força de trabalho é muito local. Mesmo a mobilidade de nível superior é pequena, até porque o País é muito grande. E, no caso dos trabalhadores técnicos e do pessoal de linha de produção formados e capacitados pelo Senai, eles são moradores locais. E aí tem algumas características peculiares. Temos de formar os profissionais onde a indústria está indo e contratando. Isso é feito com base no acompanhamento dos 28 setores da indústria pelo observatório tecnológico, que acompanha também o volume de investimentos. Além disso, o pessoal do Senai já é treinado e capacitado no mesmo equipamento que ele vai operar na indústria. Essas são características totalmente distintas do sistema educacional público, por exemplo, que não guarda essa correspondência com a dinâmica privada.

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