'Formalizar empresa não pode ser um fardo'

Presidente de entidadeque reúne confederaçõesde empregadores de 143 países participa de evento da FDC na terça-feira

Entrevista com

Brent Wilton, secretário da International Organization of Employers

O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2014 | 03h04

O papel das empresas no desenvolvimento social vai ser discutido entre amanhã e terça-feira em um evento promovido pela Fundação Dom Cabral (FDC), na cidade mineira de Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte.

Os debates vão incluir presidentes de Câmaras de Comércio, executivos internacionais que atuam no Brasil e entidades globais que tentam encontrar o papel da iniciativa privada no debate sobre os rumos da economia global. Entre os presentes na terça-feira estará Brent Wilton, secretário-geral da International Organization of Employers (IOE), entidade que reúne empresários de todo o mundo. Um dos representantes brasileiros nessa associação é a Confederação Nacional da Indústria (CNI).

A IOE foi estabelecida um ano depois da Organização Internacional do Trabalho (OIT), órgão criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1919 para garantir os direitos de trabalhadores no mundo todo. Segundo ele, uma das funções da entidade, de capital 100% privado, é definir barreiras à contribuição das empresas para o desenvolvimento. "As empresas não podem substituir o governo."

Wilton também diz que a IOE busca facilitar o ambiente de negócios global, com demandas como redução da burocracia e da corrupção. "A formalização não pode ser um fardo para as empresas." A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como a história da organização que o sr. preside se confunde com o da Organização Internacional do Trabalho (OIT), órgão da ONU que representa os direitos dos trabalhadores?

Nossa organização foi estabelecida um ano depois da OIT. Representamos mais de 150 organizações em 143 países. Essas organizações são importantes em nível nacional e são reconhecidas como possíveis formuladoras de políticas. Ao longo do tempo, além de colaborar com a OIT, nossa organização passou a interagir com outros órgãos da ONU, como OMS (saúde) e OMC (comércio). Somos um representante global do setor privado.

Como a empresa se posiciona em relação aos governos e às parcerias público-privadas?

Nosso desafio global é criar um ambiente melhor para os negócios se desenvolverem, tentar influenciar as políticas governamentais para que as empresas possam prosperar. Ao mesmo tempo, tentamos conscientizar os governos de que há limites para o que as empresas podem fazer. Em muitos lugares, as empresas são vistas como substitutas do governo. Empresas não têm obrigação de prover educação, serviços de saúde e infraestrutura. Até porque as companhias são finitas. Elas podem ter problemas financeiros e desaparecer de uma hora para a outra. A obrigação da empresa não é com o país, mas sim com seus acionistas.

Mas é importante que as empresas tenham algum tipo de trabalho social ligado à sua marca?

Sim, há grandes exemplos de empresas que elegem desafios sociais e conseguem criar mobilização em torno deles. Mas repito que isso não quer dizer substituir o papel do governo. Por exemplo: é natural que uma empresa de mineração, que tenta atrair trabalhadores qualificados para um mina localizada no meio da floresta, construa escolas, estradas e uma infraestrutura de saúde e educação para atrair talentos para aquela área. No entanto, o governo tem de participar e se comprometer com a administração desses serviços. Afinal, os recursos da mina podem se exaurir, e o papel de tentar fazer com que aquela nova comunidade tenha outras opções econômicas e sobreviva ao fim desse ciclo é do governo. A empresa pode ir embora, mas a comunidade tem de ficar em pé.

E a questão do trabalho informal, é um problema a ser combatido?

Sim. Ao redor do mundo, no entanto, há diferentes níveis de sofisticação econômica. E a empresa multinacional não pode ser tratada da mesma forma que um pequeno negócio. A formalização não pode ser vista como um fardo para o empreendedor, mas como uma vantagem. Acho que é papel do governo oferecer treinamento a futuros empreendedores, além de simplificar processos.

Esse processo está ligado à redução da burocracia?

As nações mais bem classificadas no relatório Doing Business (Fazendo Negócios) são aquelas que eliminam a burocracia. Na Nova Zelândia, por exemplo, um empreendedor consegue abrir uma empresa pela internet, em um dia, sem nenhum intermediário. Com um único passo, a oportunidade para a corrupção entrar no processo praticamente desaparece. Mas, incrivelmente, é difícil encontrar vontade política para eliminar a burocracia.

Governos ao redor do mundo têm apertado o cerco à corrupção corporativa. Há casos conhecidos como o da francesa Alstom e o da alemã Siemens. Como a IOE reage a isso?

Acreditamos que toda a forma de corrupção tem de ser combatida, mas a regra tem de valer para todos os tipos de companhias, e não só para as grandes. Não adianta fazer essas empresas como símbolos e deixar que a corrupção ocorra com negócios menores e menos conhecidos.

Do ponto de vista econômico, a IOE tem uma visão parecida com a do FMI?

Sim. Nosso lema é ajudar os negócios e nivelar as regras para que todos tenham as mesmas oportunidades. Com esse tipo de ambiente, as empresas vão se mostrar mais dispostas a se arriscar no mercado, a fazer investimentos. Na França, por exemplo, existe uma regra que praticamente impede a contratação de trabalhadores mais qualificados por determinadas empresas, pois o nível de burocracia aumenta muito depois de um determinado patamar de ganhos. Isso é o contrário de ajudar o crescimento. Também tentamos reforçar alguns conceitos, como o respeito aos direitos de propriedade intelectual.

Serviço

Conferência Internacional da FDC
Tema: Melhorando a sociedade por meio de negócios e administrações relevantes 
Onde: Campus Nova Lima, da Fundação Dom Cabral
Quando: amanhã (pré-conferência) e terça-feria (conferência)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.