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Fortalecer o navio

O Fórum Estadão sobre Comércio Exterior, realizado terça-feira, voltou a discutir problema velho de guerra, que só é tudo isso porque não tem solução à vista.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2013 | 02h11

São as distorções que as políticas de câmbio produzem no comércio global. De um outro jeito, a presidente Dilma queixou-se do mesmo afogamento da produção quando reclama do "tsunami monetário" provocado pelas emissões de moeda forte pelos países ricos. E o ministro Guido Mantega, quando denuncia a "guerra cambial".

O fato é que os grandes bancos centrais, especialmente o Federal Reserve (Fed, dos Estados Unidos), o Banco Central Europeu e o Banco do Japão, passaram a imprimir impressionantes volumes de moeda, não propriamente para garantir uma desvalorização cambial que aumentasse as próprias exportações, mas para tirar seus respectivos países do sufoco da crise.

O problema é que essas políticas produzem efeitos colaterais de grandes proporções. Entre esses estão as distorções no mercado financeiro, porque imensos volumes de moeda produzem solavancos nos preços dos ativos; e a anulação das barreiras alfandegárias, cujo objetivo é proteger o produto local com um adicional de impostos sobre produtos importados. Assim, os acordos comerciais se transformam em ficção. É que a desvalorização das moedas fortes que se segue a essas brutais emissões barateia também em moeda forte os produtos desses países ricos, de um jeito tal que alija dos mercados o produto concorrente.

O diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), o embaixador brasileiro Roberto Azevêdo, também presente ao debate, jogou um balde de gelo sobre aqueles que entendem que é preciso primeiro resolver esse problema antes de realinhar tarifas aduaneiras. "Essa questão só será devidamente tratada se houver cooperação dos grandes países emissores de moeda forte no mundo", disse ele.

Como não há essa cooperação, porque os senhores do mundo não têm interesse nessa negociação, conclui-se que sobra para os incomodados apenas o recurso do esperneio, enfeitado pela retórica do "tsunami monetário" ou da "guerra cambial".

A atual desordem cambial provém de 1971, quando o então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, sepultou o Sistema de Bretton Woods (criado em 1944), ao decretar unilateralmente o fim da conversibilidade do dólar em ouro. De lá para cá, as moedas dançam freneticamente, como dervixes.

Em tese, só há duas soluções para a criação de uma nova ordem monetária: ou um grande acordo, como o sugerido por Azevêdo, ou a criação de uma moeda única global. Essas saídas não estão na tela de nenhum radar. As coisas teriam de piorar muito para todos, como aconteceu nos anos 40, depois de uma Grande Depressão e duas Guerras Mundiais, para que alguma solução, como a de Bretton Woods, se torne possível.

Enquanto isso, sobra para um país como o Brasil, que pretende passar incólume por tempestades desse tipo, a opção de fortalecer o navio. Isso implica dar solidez aos fundamentos da economia - e não esse mais ou menos defendido pela presidente Dilma; e dar competitividade a todo o setor produtivo nacional - e não só à indústria.

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