Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Fortalecimento do dólar pressiona economia de países emergentes

Moedas de países em desenvolvimento perdem força com perspectiva de alta maior dos juros nos EUA; no caso brasileiro, incertezas em relação ao cenário eleitoral podem gerar depreciação adicional

Ana Paula Ragazzi, Altamiro Silva Junior, Douglas Gavras e Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

03 Maio 2018 | 04h00

O fortalecimento do dólar nos últimos meses começa a levantar preocupações em relação aos impactos nas economias de países emergentes, mais sensíveis ao humor do mercado global. Para analistas, países como Argentina, Turquia, Rússia e também o Brasil podem ser os mais afetados pelo movimento.

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São esses os países onde o dólar mais vem se valorizando, no rastro da expectativa de um aumento maior dos juros nos Estados Unidos, por conta do aquecimento da economia – o que torna o mercado americano mais atrativo para os investidores. No Brasil, o dólar atingiu nesta quarta-feira, 2, R$ 3,5518, o maior valor desde junho de 2016, o que levou o Banco Central a se decidir pela intervenção no mercado de câmbio.

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“Os emergentes acabam mesmo sentindo mais os movimentos do exterior. Quando os Estados Unidos ‘espirram’, os mercados emergentes ‘ficam gripados’”, diz David Beker, chefe de economia e estratégia do Bank of America Merrill Lynch no Brasil. “No caso brasileiro, a gente acaba buscando explicações internas para dimensionar o impacto, mas o principal fator de valorização do dólar hoje é mesmo externo.”

O caso mais complicado, segundo analistas, é o da Argentina onde o dólar se valorizou 32,78% ante o peso nos últimos 12 meses. O economista Martín Redrado, ex-presidente do Banco Central argentino, credita 40% da corrida cambial a fatores externos e 60% a internos. Além da perspectiva de elevação da taxa de juros nos EUA, questões domésticas, como os déficits fiscal e em conta-corrente e a inflação alta desencadearam a desvalorização, explica. “É provável que o Banco Central volte a subir juros.” 

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Um relatório do Instituto Internacional de Finanças (IIF), formado pelos 500 maiores bancos do mundo e com sede em Washington aponta que Argentina e Turquia são exatamente os emergentes “para se observar” nesse momento, por conta dos déficits elevados.

A instituição alertou que a economia mundial passa por um período de mudanças e que o risco para emergentes aumenta. Em geral, esses países têm maior dependência de financiamento externo, que fica mais caro e mais difícil com os investidores preferindo buscar a segurança do mercado americano.

Transição. O Brasil é o quarto país em que o dólar mais se valorizou nos últimos 12 meses, segundo um levantamento da consultoria Economática, feito a partir de uma cesta de 25 moedas. Durante o período, o dólar só se valorizou mais que o real na comparação com o peso argentino, a lira turca e o rublo.

Para o ex-diretor do BC Alexandre Schwartsman, há vulnerabilidades no Brasil que ajudam o real a perder valor, entre elas a própria transição política e a incerteza acerca das reformas. “É um processo global que também tem repercussão local. Não dá para descartar uma depreciação adicional, gerada internamente, quando a ficha cair de que a chance de um candidato reformista se eleger é baixa.”

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A perspectiva de um ambiente de real desvalorizado, por um lado ajuda nas exportações, mas também prejudica as importações e pressiona preços. Se a volatilidade aumenta, o planejamento das empresas que exportam e compram do exterior também fica prejudicado.

Para o economista-chefe da Modalmais, Alvaro Bandeira, a situação do Brasil, contudo, é menos preocupante que a de outros emergentes, pelas reservas internacionais altas. “Elas são um colchão, apesar de ainda termos problemas fiscais que pressionam.”

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