Forte alta dos juros básicos 
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Forte alta dos juros básicos 

Diante da escalada da inflação e do dólar, o Banco Central elevou a taxa básica de juros em 0,75 ponto porcentual ao ano, de 2% para 2,75% ao ano, dando o recado que alguém assumiu o comando de uma economia sem rumo

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2021 | 19h42

Há quase seis anos os juros básicos (Selic) não subiam. Pois desta vez, a mordida foi valente, de 0,75 ponto porcentual ao ano, de 2% para 2,75%, porque a inflação foi longe demais. O recado foi o de que alguém assumiu o comando de uma economia sem rumo. Com seu único instrumento, a política monetária, o Banco Central teve de lidar com forças que trabalham em direções opostas. 

A mais importante dessas forças é o estouro confuso e inesperado da inflação em tempos de retração da economia. Depois de cinco anos de baixo avanço e em queda, em fevereiro a inflação medida em 12 meses (evolução do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA)) saltou para 5,2%, fortemente acima da meta do ano, que é de 3,75%. A expectativa dos agentes econômicos, medida pela Pesquisa Focus, é de uma inflação anual em dezembro de 4,6%, número que tende a se encorpar.  O próprio Copom projeta para alguma coisa em torno dos 5,0%.

O Banco Central vinha perdendo as condições de ancoragem, que é a capacidade de levar os fazedores de preços a acreditar que a inflação vai para onde o Banco Central quer que vá.

Em boa medida, a estocada descontrolada da inflação é consequência da alta do dólar que, apenas em 2021, já está perto dos 8%, a despeito das intervenções agressivas do Banco Central para contê-la. O encarecimento da moeda estrangeira também puxa para cima os preços dos importados e dos produtos amarrados ao dólar, como os combustíveis e rações animais. 

A disparada da cotação do dólar, por sua vez, é o resultado de enormes lambanças do governo que produziram insegurança: é a política sanitária desastrada de controle da covid-19; a intervenção atabalhoada na Petrobrás; e a maneira flácida como administra as contas públicas. Não menos importante, o dólar também decolou com a volta de Lula ao cenário político-eleitoral.

Não falta quem atribua o avanço da inflação também ao rali das commodities, que aumentou os preços da carne, das rações animais e de grande número de alimentos. No entanto, a escalada dos preços do feijão preto e do arroz, de 51,6% e 69,8%, respectivamente, em 12 meses, não tem relação com o dólar. São produtos apenas marginalmente exportados. Tem a ver com o aumento do consumo interno que, por sua vez, é consequência da distribuição do necessário e inevitável auxílio emergencial durante a pandemia, de R$ 294 bilhões para 68,2 milhões de pessoas.

Nos relatórios das reuniões anteriores do Comitê de Política Monetária (Copom), o Banco Central vinha afirmando que a maior parte da inflação tinha origem no aumento de custos da economia. Nessa categoria poderiam entrar a desorganização dos estoques, a alta do petróleo e demais commodities no mercado internacional.

Em princípio, uma inflação de custos não se combate com alta dos juros, porque alta de juros é produzida com redução do volume de moeda na economia, recurso que não ajuda a aumentar a oferta de mercadorias e serviços. Alta dos juros funciona quando o avanço da inflação é produzido por aumento da demanda que, por sua vez, reflete mais dinheiro circulando na economia. Funciona, porque, com menos moeda em circulação, também se reduz a demanda por coisas e serviços. 

Por isso, também, o Copom preferiu apostar em que a inflação seria temporária – enquanto durasse esse aumento de custos. Por isso, não mexeu nos juros. Mas as coisas desandaram e continuar sem fazer nada poderia ser pior.

Se fosse para evitar novas altas da moeda estrangeira, talvez o Banco Central tivesse de puxar os juros para 3,0% ao ano. A intervenção a que se viu obrigado nas últimas semanas talvez tenha tido o objetivo de limitar a alta dos juros a esse 0,75 ponto porcentual.

Juros subindo assim produzem efeito colateral perverso: tendem a frear a economia num momento em que o desemprego é alto e em que a produção perde fôlego. Já havia o efeito pandemia que vai parando tudo e, agora, tem essa mordida dos juros. Por isso, comerciantes, empresários e pessoas que dependem de crédito vão multiplicar protestos e queixas contra a decisão.

O Banco Central avisou que pretende chegar a uma Selic de 4,5% neste ano e de 5,5% em 2022. Mas não tem clareza sobre a dosagem correta.

CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA


 

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